Comentário de Paulo Wrobel  –  Julho de 2017

Com seis meses de governo, talvez seja cabível fazer uma breve  avaliação da administração Donald Trump. Polêmica seria uma expressão  suave para caracterizar esses atribulados meses. Iniciativas no mínimo contenciosas, diga-se de passagem seguindo à risca seu programa de governo, ainda não criaram sólidos parâmetros de governabilidade em uma sociedade tão complexa como os Estados Unidos de hoje. Afinal, oito anos de administração Obama deixaram um legado relativamente positivo, particularmente a respeito da recuperação econômica.  A eleição do Presidente Trump em novembro de 2016 foi uma enorme surpresa.  Sem nunca  ter disputado um cargo eletivo, um homem de negócios independente, polêmico e boquirroto, acabou derrotando dezesseis outros pretendentes a candidato do Partido Republicano.  Na eleição, a candidata democrata Hillary Clinton, uma ‘Washington DC insider’  como nenhum outro, não deu conta de enfrentar um ‘outsider’ com farta munição contra o sistema político e econômico vigente. O candidato ‘anti-status quo’  derrotou a candidata do ‘status quo’ A disputa pelo sistema do Colégio Eleitoral conduziu a uma acirrada disputa por alguns poucos estados do meio-oeste americano, típico da polarização do Colégio Eleitoral, levando a vitória do candidato republicano, mesmo com 2.5 milhões de votos populares a menos. Vicissitudes do sistema, nada a reclamar. Afinal, trata-se do quadragésimo quinto presidente americano eleito por este sistema, que parece bem servir ao país. Trump acabou por conquistar o eleitorado como um ‘outsider’, anti-Washington DC, contra os excessos da burocracia e a irracionalidade do sistema político, contra os  males econômicos, a violência, a competição comercial desleal e inúmeros outros males que, certo ou errado, capturaram a imaginação do eleitor médio americano. Entretanto, o inconsistente argumento da maioria do voto popular conquistado pela candidata democrata foi um dos empregues para deslegitimar a eleição de um Presidente nitidamente despreparado.Fato inédito, a eleição de Trump não foi aceita pelos setores liberais, acadêmicos e intelectuais e muitos outros que refletem a influência da opinão pública liberal, liderada pelo New York Timese outros órgãos da grande imprensa. Estes veículos desenvolveram uma agenda visando inviabilizar a administração republicana. Um Presidente neófito, homem da mídia no sentido amplo que usa demasiado ‘soundbites’  que polarizam, talvez desnecessariamente, a opinião pública. Ademais, sua agenda socialmente retrógrada em nada contribui para galvanizar apoio das diversas elites que influenciam a opinião pública americana e mundial.  No plano internacional, novas regras sobre imigração, comércio, multilateralismo, meio-ambiente, sistema ONU, relações com o México e a União Europeia, entre outras, parecem inviabilizar o diálogo. O logo “America First”  parece indicar mudanças significativas, em todos os âmbitos, no papel que os Estados Unidos exerceu na ordem internacional do pós-Segunda Guerra. Na visão do “America First”, esta ordem não mais corresponderia aos interesses americanos. As relações com a China e a Rússia são as que mais atraíram a atenção. Quanto a China, a aposta de Trump de que Beijing conseguiria influenciar o comportamento da República Democrática Popular da Coréia no tocante aos mísseis e as armas nucleares  mostrou-se demasiado ingênua; o endurecimento comercial dos Estados Unidos com o parceiro de maior déficit comercial está prestes a  ocorrer, o que certamente contribuirá para deteriorar as relações bilaterais sino-americanas.  Em relação à Rússia, a alegada influência russa em favor de Trump nas eleições –  com fortes e controversos indícios – tem sido fator constante de perturbação na agenda política doméstica e internacional do país. A candidata Hilary Clinton usou agressivos argumentos anti-Moscou na campanha eleitoral, enquanto Trump minimizou as agressões russas e demonstrou admiração pelo líder russo Vladimir Putin, mas isto agora é irrelevante; as relações bilaterais russo-americanas estão deterioradas e nada parece apontar para uma melhoria. Seis meses de uma administração conturbada, com aparente baixo apoio da opinião pública – um indicador que não pode ser levado tão a sério –  tomou medidas impopulares tanto no plano doméstico quanto no plano internacional. A maior derrota, até agora, foi indubitavelmente a ausência de consenso no Partido Republicano a respeito da reforma do ‘Obamacare’, o programa de ampliação da cobertura de planos de saúde à população americana de baixa renda, um dos pontos chave em sua campanha eleitoral. Imprevisibilidade, postos importantes ainda a ser em  preenchidos, demissões, polarização no Congresso, antagonismo acirrado do Partido Democrata, negócios pessoais misturados aos públicos, reação agressiva de diversos setores à política s sociais, bem como o uso excessivo de mensagens bizarras são, entre outros, fatores que apontam desgaste e fragilização de um Presidente que ainda aprende a arte de governar a nação mais relevante do planeta. Resta saber se o mundo pode esperar.