Por Renato Whitaker *

No final de fevereiro desse ano, houve uma notícia curiosa: uma das consequências da disseminação do novo coronavírus (COVID-19) na China foi registrada pela agência espacial americana NASA, que detectou que a famosa poluição aérea sobre grandes partes do país (mais especificamente, índice detectáveis de dióxido de nitrogénio) despencaram precipitosamente[1]. Embora poderia haver outras explicações, como o advento do ano novo chinês no qual atividades econômicas diminuem, recentes reportagens de emissoras como Deutsche Welle, CNN[2] e Forbes[3] aumentam a credibilidade ao argumento que o refreio da economia chinesa (e da queima de carvão que abastece-a) causou não somente uma melhora na qualidade do ar chinês, mas também talvez salvará mais vidas humanas do que as baixas causadas por COVID-19[4].

Ecologistas, e outros que atuam na área ambiental, conceptualizam os danos ou efeitos nocivos que a atividade humana tem sobre o meio ambiente com a fórmula “iPAT” (ou i=PAT), onde “i” (o impacto humano) é igual a “P” (o tamanho da população) vezes “A” (a afluência ou os padrões de consumo médio de cada pessoa) vezes “T” (a eficiência tecnológica dos fatores de produção que criam a riqueza). Em suma, cada pessoa a mais é um consumidor que gera externalidades poluentes. Essa poluição (seja na produção dejetos, emissão de gases de efeito estufa ou expansão do desmatamento) aumenta conquanto o padrão de consumo médio da população cresce.

O fator “T” é o curinga da equação. Inovações tecnológicas podem diminuir a necessidade de insumos na produção de riqueza, ou melhorar os processos inerente como distribuição de bens e consumos ou o trato dos múltiplos dejetos; o “T” age como divisor na fórmula. Em contraponto, ineficiências transformam o “T” em um multiplicador, aumentando ainda mais os impactos negativos nos ecossistemas do mundo.

A fórmula iPAT não é uma equação rígida com medições exatas, mas um instrumento para melhor imaginar e visualizar o impacto do ser humano no planeta. Adicionalmente, a maior parte dos seus fatores são tendências geracionais, mudando conforme as décadas: a população cresce ou decresce de acordo com os impulsos demográficos, a afluência muda de acordo com a economia e as inovações tecnológicas requerem tempo para serem inventadas, testadas e adotadas. O que o surto do COVID-19 aparentemente fez, pois, é abruptamente diminuir o nível de consumo conquanto as atividades manufatureiras, logísticas e varejistas cerraram suas atividades, ou para cooperar com medidas de quarentena ou pela simples falta de demanda. Uma tendência similar foi observada logo depois da crise financeira de 2008, quando mercados mundiais esfriaram. [5]

Isso oferece reflexões para ambientalistas e economistas proponentes do desenvolvimento sustentável. Para os primeiros, o consumo parece ser o fator mais flexível e acessível de atingir mudanças positivas no curto prazo; a adoção de novas tecnologias e a diminuição e reversão do crescimento populacional são tendências mais rígidas de influenciar, embora investimentos positivos para dividendos futuros possam já serem feitos. Para os segundos, os efeitos da crise do COVID-19 sugerem que ainda não foi atingido o objetivo máximo do crescimento sustentável: o “decoupling” ou o “desacoplamento” dos impactos ambientais do crescimento econômico. Por ora, a atividade econômica parece equivaler ao impacto deteriorante no meio ambiente.

* Colaborador do IRICE

[1] “Coronavirus: Nasa images show China pollution clear amid slowdown”, 29 fevereiro 2020, BBC.

[2] “There’s an unlikely beneficiary of the Coronavirus: the planet”, 17 março 2020, CNN

[3] ” Study: Coronavirus Lockdown Likely Saved 77,000 Lives In China Just By Reducing Pollution”, 16 março 2020, Forbes.

[4] “New Evidence Shows How COVID-19 Has Affected Global Air Pollution”, 17 março 2020, Science Alert.

[5] ” How changes brought on by coronavirus could help tackle climate change”, 16 março 2020, The Conversation.