Entrevista a Bianca Gomes, O Estado de S.Paulo

22 de abril de 2021 | 15h00

Apesar de ter reiterado as posições defensivas do ministro Ricardo Salles e seu discurso equivocado sobre as conquistas ambientais brasileiras, o presidente Jair Bolsonaro apresentou nesta quinta-feira, 22, na Cúpula do Clima 2021, uma série de propostas para ajustar a política ambiental do País. E agora está publicamente comprometido com elas, disse o embaixador e diretor-presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice)Rubens Barbosa. “Não virá um tostão sem comprovação de resultado”, disse o embaixador em entrevista ao Estadão. “Sobretudo na questão do desmatamento, da queimada e do garimpo, pois são atos ilegais que estão sendo cometidos no País.”

Como o sr. avalia o discurso do presidente Jair Bolsonaro?

Eu achei o discurso positivo. Primeiro, porque agora ele (Bolsonaro) está publicamente comprometido, sobretudo com relação ao fortalecimento de órgãos ambientais e combate ao desmatamento ilegal. Antes, ele não estava comprometido, muito pelo contrário. Agora precisará fazer todas as modificações que prometeu a esses países e apresentar os resultados, pois, sem esses resultados, ninguém vai dar nenhum apoio financeiro ao Brasil.

Acredita que o discurso do presidente na cúpula convenceu Joe Biden e os demais líderes? 

O presidente repetiu as posições defensivas do Ricardo Salles e o discurso das conquistas ambientais brasileiras. É uma retórica, todos os presidentes têm. Apesar de ter reiterado a retórica defensiva e dessas conquistas ambientais, Bolsonaro apresentou algumas propostas para preservação da Amazônia e para ajustar a política ambiental do País.

O discurso é um primeiro passo para mudar a imagem do Brasil em âmbito internacional?

A credibilidade e a imagem do Brasil só vão mudar quando o Brasil apresentar resultados concretos. Como Bolsonaro tem um gap de credibilidade, ele vai ter de demonstrar aquilo que prometeu. Se o orçamento for aprovado e ele não repassar aos órgãos ambientais, todos vão cobrar, principalmente os ambientalistas. Acho que precisamos esperar antes de criticar. O prazo de Bolsonaro é curto, já que teremos eleições no ano que vem. Mas para receber qualquer recurso estrangeiro, ele vai precisar demostrar o que prometeu.

O que achou do presidente condicionar a preservação ao repasse estrangeiro?

É uma posição do (Ricardo) Salles. Mas não virá um tostão sem comprovação de resultado. Não haverá nenhum recurso de empresas ou governo para o Brasil sem que esses compromissos comecem a ser executados, sobretudo na questão do desmatamento, da queimada e do garimpo, pois são atos ilegais que estão sendo cometidos no País.

Sentiu falta de algum ponto no discurso?

Acho que não deveria ter feito a vinculação com recursos financeiros de outros países, deviam fazer a partir dos resultados. E achei que foi positiva a referência às comunidades indígenas, que ele nunca havia mencionado, e agora é possível cobrar esse ponto. Bolsonaro deu um roteiro para a sociedade brasileira cobrar dele providências para a Amazônia.

O que o sr. achou do discurso de Joe Biden? 

Biden não tem controle sobre o que cada um dos presidentes fala. Mas ele teve liderança para marcar reunião, convidar as pessoas. E todos apareceram. Ele colocou a agenda do meio ambiente, da mudança de clima e da Amazônia na agenda global. É preciso ver também que Biden tem um interesse não só ambiental com essa agenda, mas comercial e econômica. Ele colocou o meio ambiente no centro da política econômica, externa e de defesa americana. Quer, agora, recuperar o tempo perdido em relação à China, que está muito na frente em termos de produção de equipamentos para o meio ambiente. O objetivo é ambiental, mas também político, de recuperar o tempo perdido por Trump e colocar os Estados Unidos na vanguarda da agenda ambiental, e comercial, de recuperar o espaço perdido para a China.

Qual o significado da cúpula? 

A cúpula foi muito importante para colocar os Estados Unidos de volta ao centro dos acontecimentos em relação ao meio ambiente. A cúpula ainda dá uma força para a preparação adequada das diferentes conferências internacionais que vão haver neste ano, como a cop26 e outras reuniões do g20 e g7. E essa cúpula inicial dá força, visibilidade e coloca alguns países como o Brasil e a Indonésia, que têm florestas tropicais, em uma posição de ter que apresentar resultados. É uma oportunidade para o Brasil começar a mudar sua retórica e a política em relação aos ilícitos da Amazônia.

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