Agência Virtù News

30 de abril 2021

 

VirtùNews entrevista Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice). Na conversa, Barbosa comenta a reorientação na política externa nacional, fala sobre a diplomacia da vacina e analisa o declínio brasileiro na liderança regional.

A substituição de Ernesto Araújo por Carlos França, na avaliação de Barbosa, afastou a política externa da esfera mais ideológica do governo de Jair Bolsonaro. “A nomeação do Carlos França foi muito importante, porque as prioridades da política externa brasileira sempre foram as mesmas, o que mudava eram as ênfases”, afirmou Barbosa. “Ernesto Araújo foi um ponto fora da curva. O Carlos França levou a política externa para o seu leito normal, seu leito profissional.”

Para o embaixador, a reorientação foi sentida na carta enviada por Bolsonaro ao presidente dos EUA, Joe Biden, a respeito dos compromissos assumidos pelo Brasil no combate ao desmatamento e na redução da emissão de carbono. É o início do esforço de reverter o isolamento internacional e recuperar a imagem do Itamaraty. O País, agora, será cobrado pelas suas promessas ambientais e terá que demonstrar ações concretas para reverter a desconfiança externa.

Politização das vacinas

Com relação ao acesso a vacinas, Barbosa avaliou que há uma grande falta de solidariedade entre as nações. Os grandes produtores, principalmente a China e a Índia, têm usado a venda de imunizantes como ferramenta no jogo internacional de influência geopolítica. É o que faz a Rússia e o que começam a fazer os EUA. O Brasil deverá se candidatar a receber partes das 60 milhões de doses excedentes da AstraZeneca que o governo norte-americano poderá distribuir, mas, para o embaixador, uma boa parte desses imunizantes deverá ir para a Índia, em boa medida por causa da importância estratégica dos indianos no contexto de disputa dos EUA com a China.

Barbosa destacou que os sinais emitidos pelo governo Biden, até aqui, apontam para um enfraquecimento da relação bilateral com os EUA, mas os norte-americanos não desejam uma confrontação. “É um momento de estender a mão. Mas a política externa americana, com Biden, mudou, e o meio ambiente é central”, disse. “Não vai entrar um tostão em convênios externos enquanto o Brasil não apresentar resultados concretos na redução do desmatamento e de práticas ilegais.”

O embaixador comentou ainda os desentendimentos entre os países do Mercosul e as dificuldades na conclusão do acordo comercial com a União Europeia. “A abertura comercial depende de reformas, como a tributária. Precisamos de uma reforma do estado, uma reforma administrativa, por causa da perda de competitividade “, disse Barbosa. “Os acordos ficam emperrados por causa da burocracia e da regulamentação. O resultado é a perda de nossa importância econômica.”

 

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