Rubens Barbosa*

 

“A nova era que começa em 2021 poderá representar a perspectiva de Guerra contra a China em substituição à Guerra ao Terror? A seguir íntegra de artigo do diplomata Rubens Barbosa, publicado hoje na coluna Opinião:   Com o fim da Guerra Fria em 1989, restou uma única superpotência. Os EUA, imperial, moldaram o que chamaram de nova ordem internacional e por impuseram ações unilaterais. Os ataques contra as torres gêmeas de New York e ao Pentágono em Washington em 11 de setembro de 2001 colocaram fim a essa era. A quebra do mito da invencibilidade norte-americana e o primeiro ataque ao território americano desde 1814 afetaram profundamente a sociedade local e explicam, na política externa, a era de Guerra ao Terrorismo, iniciada com a invasão do Afeganistão contra o grupo islâmico Talibã para destruir os jihadistas da Al Qaeda, que assumiu a responsabilidade pelos ataques de 11 de setembro, e para buscar, vivo ou morto, Osama Bin Laden. A ação anti-terrorismo islâmico foi ampliada pela invasão do Iraque, justificada pelas “fake news” de que Saddam Hussein estava associado a Al Qaeda e possuía arsenal de armas de destruição em massa. A ocupação do Afeganistão e do Iraque, por inspiração neoconservadora do presidente George W. Bush, gerou alteração na Lei de Segurança Nacional prevendo ataques preventivos, mudança de regime (“regime change”) e reconstrução nacional (“nation building”), segundo os valores e as instituições norte-americanas (democracia, livre mercado, sistema político), sem levar em conta a cultura e as peculiaridades desses países. A política de reconstrução nacional foi aplicada em 19 países, entre os quais Síria, Líbia, Somália, com intervenções militares (drones) e de inteligência em 85 países que custaram milhares de vidas aos soldados americanos e aos civis desses países e gastos de mais de 8 trilhões de dólares em 20 anos.

Contrário à guerra no Afeganistão como vice-presidente de Barak Obama, Joe Biden, durante a campanha presidencial de 2019, prometeu a retirada das FFAA dos EUA daquele país. Eleito presidente, manteve a promessa de campanha e a decisão de seu antecessor, Donald Trump, de retirar os militares até 31 de agosto. Em histórico pronunciamento colocou um final à mais longa guerra da história americana. Ao anunciar que estava começando um novo capítulo da política externa, Biden declarou que a saída do Afeganistão representava o fim de uma era que se iniciou em 2001. Contrariando Lincoln que dizia que “princípios importantes devem ser inflexíveis”, Biden seguiu o filosofo alemão que observou “não haver fatos eternos, como não há verdades absolutas”. Nas palavras do presidente dos EUA, “não mais haverá intervenção militar com a mobilização de tropas e tentativa de reconstrução de nações em outros países do mundo”. A pressão da política interna em um país dividido e radicalizado, consagrou a atitude de isolamento da maior potência global, com consequências e novas tensões no cenário internacional.

A afirmação de que os EUA não mais promoverão intervenções militares para a mudança de regime e a reconstrução nacional é tão histórica quanto a de John Kerry, Secretário de Estado do governo Obama, que declarou, em pronunciamento na OEA, que as intervenções militares americanas na América Latina não mais se repetiriam porque o governo dos EUA estava colocando um fim na famosa Doutrina Monroe, contra a presença e influência europeia nos países da região. As intervenções militares de Washington para a mudança de regime estiveram vinculadas aos interesses americanos de combate ao terrorismo, com todos os excessos (gastos, corrupção, tortura e ataque à população civil) ao redor do mundo, enquanto a Doutrina Monroe foi utilizada para defender interesses ideológicos (Cuba, República Dominicana, Nicarágua, Colômbia, Chile) e econômico-comerciais (Granada, Panamá, El Salvador, Guatemala).

Com o término da Guerra ao Terrorismo, simbolicamente representado pela desordenada retirada das tropas do Afeganistão, a nova estratégia geopolítica de Washington deverá ser alterada. Na política externa, a prioridade do Oriente Médio deverá passar para o Sudeste da Ásia com foco na crescente disputa tecnológica, comercial e, no futuro, militar, com a China, considerada “adversária” pelo establishment norte-americano. Internamente, a preocupação com a segurança nacional passará a ser o combate ao terrorismo interno. O isolacionismo dos EUA, com o país voltado para dentro, reforça a possibilidade de ações radicais da direita conservadora e a possibilidade de ações de lobos solitários próximos de organizações terroristas no exterior.

A nova era que começa em 2021 poderá representar a perspectiva de Guerra contra a China em substituição a Guerra ao Terror? O relacionamento entre os EUA e a China vem se deteriorando nos últimos cinco anos na direção da desintegração e confrontação. Se essa tendência persistir, daqui a 20 anos, o mundo estará mais perigoso. Para tentar reduzir esse risco, Biden telefonou a Xi Jinping, na véspera do 11/9, para manifestar “o interesse dos EUA na paz e na estabilidade global e afirmar a responsabilidade dos dois países em assegurar que a competição não se torne em conflito”.

Nesse quadro de grandes transformações, qual o lugar do Brasil no mundo na defesa de seus interesses? A pergunta deverá ser respondida pela sociedade brasileira nas eleições presidenciais de outubro de 2022.”

*      Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

 

Rubens Barbosa*

 

De retorno dos EUA, não resisto em comentar o cenário doméstico norte-americano no início do governo Biden em meio à crise da pandemia, e compará-lo com o que ocorre no Brasil. Se, no caso do Brasil, uma análise objetiva da situação atual aponta para uma forte preocupação com a evolução dos acontecimentos políticos, econômicos e sociais nos próximos meses e anos, nos EUA, a crise apresenta-se mais grave e profunda. Dada sua posição de liderança no mundo, o desdobramento do que acontece nos EUA poderá afetar outros países e mesmo tendências globais.

A divisão da sociedade norte-americana – acentuada nos últimos anos e em especial na campanha política que precedeu a eleição presidencial – está presente nos principais temas em discussão diária nos jornais e na TV. A forma como os EUA sairam do Afeganistão fez aumentar a divisão, com Trump pedindo a renúncia de Biden.

A ameaça à democracia norte-americana é vista como a mais séria desde a guerra civil em 1861. Sua exteriorização foi concretizada nos acontecimentos de 6 de janeiro em que o Congresso em Washington foi invadido por uma multidão de fanáticos seguidores de Trump e que começa a ser examinada por uma CPI no Senado. A polarização está presente desde a indicação dos membros republicanos pela presidente do Senado sob a alegação de que Leia mais

Por Rubens Barbosa*

Para o Canal Mynews, de 19 de agosto de 2021

 

O negacionismo oferece uma percepção imaginária de um mundo confuso, sem rumo. Na melhor das hipóteses, é um misto de dúvida e de credulidade, na pior, um oportunismo político com objetivo de ganhos de curto e médio prazo.

O termo negacionismo foi criado pelo historiador francês Henry Rousso, na década dos 80 do século passado. Inicialmente, negacionismo indicava a atitude de negação de um fato histórico como o extermínio dos judeus da Europa pelos nazistas. Os negacionistas visam não a rever ou reexaminar o fato histórico, mas falsear a história, a partir de motivações ideológicas.

Mais recentemente, o negacionismo, como a tentativa de revisar a história, a ciência e influir na política, ressurgiu com força na Europa, em especial na França e na Alemanha, e nos EUA, em particular com Donald Trump. Em 6 de novembro de 2012, já pensando em sua candidatura presidencial, Trump enviou um tweet sobre mudança do clima em que dizia que o conceito de aquecimento global foi criado pelos chineses para deixar as manufaturas americanas não competitivas. Da vacina à mudança do clima, do genocídio ao terraplanismo, chegou-se, na campanha presidencial e durante o governo de Trump, ao QAnon, movimento de extrema direita, negacionista total, que teve intensa participação na tentativa de invasão do Congresso em Washington, na mais séria ameaça à democracia nos EUA, desde a guerra civil em 1861. Fake News e teorias conspiratórias passaram a negar fatos comprovados e verdades estabelecidas pela ciência com objetivos políticos.

O negacionismo é uma tentativa de revisar a história, a ciência e influenciar a política.

“O negacionismo vai além de um boato ou fake news pontual. É um sistema de crenças que, sistematicamente, nega o conhecimento objetivo, a crítica pertinente, as evidências empíricas, o argumento lógico, as premissas de um debate público racional, e tem uma rede organizada de desinformação. Essa atitude sistemática e articulada de negação para ocultar interesses político-ideológicos muitas vezes escusos, que tem sua origem nos debates do Holocausto, é inédita no Brasil”, observa muito apropriadamente Marcos Napolitano, professor da Universidade de São Paulo (USP).

O negacionismo oferece uma percepção imaginária de um mundo confuso, sem rumo, em que se vive em condições de opressão, desespero e privações, no qual nada tem de ser aceito sem questionamento e onde ninguém deve ser confiável. O negacionismo, na melhor das hipóteses, é um misto de dúvida e de credulidade, na pior, um oportunismo político com o objetivo de ganhos de curto e médio prazo.

No Brasil, o negacionismo, historicamente presente na discriminação racial e no tratamento das comunidades indígenas, chegou com força no governo Bolsonaro. Durante a pandemia do Covid-19, o governo atual levou o negacionismo a proporções nunca vistas, com a negação ou minimização da gravidade da doença, no boicote às medidas preventivas, na subnotificação dos dados epidemiológicos, na omissão de traçar estratégias nacionais de saúde, no incentivo a tratamentos terapêuticos sem validação científica e na tentativa de descredibilizar a vacina, entre outras políticas e atitudes. Em outras áreas, um ministro do governo não se cansava de repetir sua atitude negacionista no tocante ao globalismo, à mudança climática, ao terraplanismo, ao marxismo cultural.

Causas do negacionismo

Como explicar essa atitude de negação, cujo objetivo, no fundo, é levar o público à confusão, além de outros efeitos paralelos. Muitos são os elementos para se entender a extensão da contaminação e a rápida aceitação de parte significativa das pessoas, em muitos países. Sem entrar em detalhes, por serem autoexplicativos, podem ser mencionados o crescimento da desigualdade social, o aumento da pobreza, a concentração de renda de forma generalizada no mundo e o baixo nível educacional, explorados por políticos populistas e autoritários. Todos esses fatores criaram um sentimento de ceticismo, de simplificação exagerada das coisas, levando a conclusões inadequadas, vitimização, interpretação diferente de fatos não evidentemente conectados e o culto da mentira e da realidade alternativa. Trump, o principal promotor da difusão das “fake news”, encontrou seguidores em outros países, que ajudaram a espalhar mentiras e teorias conspiratórias por todo o globo, com as facilidades oferecidas pela mídia social.

Quais os efeitos e as consequências?

O negacionismo representa um risco muito alto, como ficou evidenciado nos EUA pelas políticas Trump em relação à pandemia, que tornou os EUA o país com mais mortes no mundo e, nos dias atuais, com os efeitos desastrosos para a saúde das crianças, com a recusa de governadores, nos Estados mais contaminados pela Covid 19, de aceitarem o uso de máscaras em lugares fechados e nas escolas. Ou no Brasil, pelas politicas negacionistas na saúde que levaram a um crescente número de mortes, superando os 560.000, e na área política, com a contestação à lisura das eleições, colocando-se em dúvida, sem qualquer evidência, a segurança das urnas eletrônicas.

Em geral, contudo, os efeitos do negacionismo são menos diretos e concretos, mas não menos deletérios. O negacionismo na mudança do clima não conseguiu destruir o consenso científico de que o que está ocorrendo é decorrência da atividade humana. O que o negacionismo conseguiu foi dar respaldo aos que se opõem a políticas mais radicais para a defesa do planeta, inclusive aqueles que criticam um acordo global, o que ajudou a tornar o desafio ainda mais difícil.

O negacionismo também pode criar um ambiente de ódio e de suspeita. No caso do holocausto, o que se deseja é apoiar a nostalgia do regime totalitário e a utopia eugenista de uma nação pura. A negação do genocídio não apenas é uma recusa de aceitação de fatos históricos, como também representa um ataque a aqueles que sobreviveram e a seus descendentes porque procura apresentar os judeus como mentirosos e reabilitar a reputação dos nazistas. A recusa da Turquia em admitir que o massacre dos armênios existiu em 1915 também é um ataque aos armênios de hoje e uma forma de intimidação a outras minorias na Turquia, que questionam seu status e seus direitos.

Outras formas de negacionismo podem ser menos explícitas, mas não deixam de representar um perigo ou ameaça à verdade. A negação da teoria darwiniana da evolução humana não tem nenhum efeito imediato ou prático, apenas ajuda a desacreditar a ciência, o que pode alimentar atitudes que vão contra políticas baseadas em evidências científicas. Mesmo os lunáticos negacionistas – aqueles que aceitam, por exemplo, as teorias do terraplanismo, isto é, que a terra é plana (lembram-se de Galileu na Idade Média?) – embora difíceis de serem levados a sério, ajudam a criar um ambiente no qual a política e o conhecimento científico e acadêmico são colocados em dúvida em nome de uma ampla suspeita de que nada é aquilo que parece ser.

Penetração do negacionismo

O negacionismo passou das áreas marginais para o centro do discurso público ajudado em parte por motivações políticas e em parte pelas novas tecnologias. Na medida em que a informação se tornou mais livre e acessível online e a pesquisa passou a ser aberta a todos pela internet, multiplicam-se as oportunidades para discutir e contestar as verdades, como aceitas até aqui. É difícil ignorar completamente essas vozes, que seriam consideradas normalmente malucas ou totalmente desfocadas. A profusão de vozes, a pluralidade de opiniões, os ruídos despertados pela controvérsia são suficientes para despertar dúvidas sobre aquilo que se deveria acreditar.

Não há como deixar de reconhecer que o negacionismo representa um perigo real. Alguns casos podem ser indicados como exemplos concretos de negacionismo causando dano efetivo. Na África do Sul, o presidente Mbeki, nos primeiros anos deste século, foi muito influenciado por negacionistas da AIDS, que recusavam aceitar a relação entre HIV e AIDS, chegando mesmo a negar a existência da AIDS, lançando dúvidas sobre a efetividade dos remédios antirretrovirais. Estima-se que a aceitação dessa visão equivocada e a relutância de Mbeki em implementar um programa nacional de tratamento usando antivirais tenha custado a vida de cerca de 330.000 pessoas.

Como combater no negacionismo?

A resposta mais comum ao negacionismo é a exposição da mentira. Assim como os negacionistas produzem uma crescente quantidade de artigos, websites, apresentações, vídeos e livros, os que combatem o negacionismo devem responder e estão respondendo na mesma moeda. As alegações negacionistas são refutadas sistematicamente, ponto por ponto, seriamente ou de maneira jocosa.

Há casos em que houve também respostas institucionais, com consequências legais para o negacionismo. Em alguns países, foram aprovadas leis contra o negacionismo. Na França, por exemplo, a legislação proíbe o negacionismo em relação ao holocausto. Nos EUA, a tentativa de ensinar a ciência da criação juntamente com a teoria da evolução encontrou forte resistência e os negacionistas foram impedidos de escrever em revistas acadêmicas e de fazer conferências.

Conclusão

O que surpreende é o número de pessoas que aceitam “face value” essa atitude negacionista e as realidades criadas pelas fake news e teorias conspiratórias. Essa reação nem sempre ajuda a desfazer uma campanha negacionista porque, para os negacionistas, a existência do negacionismo é uma vitória. O argumento central deles é o de que a verdade foi suprimida por seus inimigos. Continuar a existir a negação é um ato heroico, a vitória sobre as forças da verdade. O combate ao negacionismo, nas sociedades democráticas, não se faz por medidas legislativas, mas pelas respostas imediatas e por ações da sociedade civil que exponham a falsidade, a distorção das fake news e a recusa em aceitar as evidências, em muitos casos, para uso político.


Quem é Rubens Barbosa?

Rubens Barbosa é consultor de negócios, presidente do Conselho Superior de Comércio Exterior da FIESP, presidente do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica e da Associação de Comércio Exterior do Brasil (AEB). É membro do Grupo de Análise da Conjuntura Internacional da USP, presidente emérito do Conselho Empresarial Brasil – Estados Unidos. Editor responsável da Revista Interesse Nacional. Foi Embaixador do Brasil em Londres, de janeiro de 1994 a junho de 1999, e em Washington, de junho de 1999 a Março de 2004.


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Rubens Barbosa *

 

O papel das FFAA e a relação entre civis e militares são tópicos de grande atualidade. Acontecimentos recentes mostram a delicadeza do assunto. Nos EUA, o poder civil (presidente Trump) quis envolver os militares na política e na França, militares da reserva pediram abertamente a seus colegas da ativa para derrubar o presidente Macron. Na França, a ministra da Defesa tomou medidas para sufocar o início de rebelião dos militares da reserva. Nos EUA, o chefe do Estado maior conjunto das FFAA fez pronunciamento dizendo que os militares não participam da política e se dissociou publicamente de Trump.

Em artigo no número atual da revista Interesse Nacional (www.interessenacional.com.br), o coronel da reserva Marcelo Pimentel oferece uma nova visão sobre o papel das FFAA no atual cenário político ao descrever a participação dos militares no governo como um movimento consciente e organizado. Pimentel indica que existe um Partido Militar no governo. “A direção é composta por núcleo restrito que controla, dirige, orienta e gerencia o governo, o presidente e as próprias narrativas, sempre no sentido da facilitação do objetivo comum a todo partido: a conquista do poder (já alcançado) e sua manutenção (em processo). “O Partido Militar não pode ser confundido com mera “ala militar” em oposição a uma “ala ideológica” no governo”. “Há dois anos e meio, o Brasil possui, de fato, um governo militar controlado por partido informal que manobra os processos narrativos para ocultar a operação de seu mais evidente agente – o capitão”. “Embora assuma papel central-catalisador nos processos de politização/militarização que integram o fenômeno, o presidente não é figura dirigente e deliberante no Partido”.

Nem sempre é assim, mas essa interpretação explicaria a crescente participação de militares da ativa e da reserva no governo (mais de 6.000, segundo do TCU), com interesses concretos que buscariam ser preservados, e a politização das FFAA (14 dos 17 generais-de-exército que integravam o Alto Comando do Exército em 2016 ocupam cargos políticos no governo). Todos com “autorização dos comandantes das três forças para ser nomeado ou admitido para cargo, emprego ou função pública civil temporária, não eletiva, inclusive da administração indireta”. A influência dos militares no governo justificaria a atitude presidencial de ressaltar que os militares estão engajados no seu projeto político (“meus generais”, “minhas Forças Armadas”, “os militares é quem decidem como o povo vai viver”). Explicaria também a observação de Bolsonaro ao General Vilas Boas “o senhor é um dos responsáveis por eu estar aqui”, a designação e a saída de um oficial general da ativa para o ministério da Saúde, a não punição desse general que participou de evento político e, até aqui, de sargento que, em encontro virtual, apoiou o governo. A politização das Polícias Militares, como se viu em diversos incidentes estaduais, culminando com a violenta repressão de uma manifestação pacífica no Recife e a modificação da legislação para permitir armar a população, como foi dito publicamente, passaram a representar preocupação para o Partido Militar por fugir de seu controle imediato. A politização dos militares e a militarização da política pode criar uma divisão nas FFAA pela erosão da hierarquia e da disciplina com consequências imprevisíveis, como assinalaram o ex-ministro Raul Jungmann e, principalmente, o general Santos Cruz. A substituição do ministro da Defesa e dos três comandantes das forças singulares pode ser vista como uma atitude de cautela em relação `a eventual divisão dentro do Partido Militar.

Apesar das informações de que os militares não admitiriam a volta de Lula e das declarações presidenciais de que não aceitará o resultado das eleições, que seriam fraudadas sem o voto impresso, vozes autorizadas garantem que as FFAA, como instituição de Estado, não apoiarão nenhuma ameaça `a ordem democrática e respeitarão a Constituição. Caso o Partido Militar pretenda manter-se no poder, com ou sem o atual presidente, como observou Pimentel, coloca-se um grande desafio para a sociedade civil. Cabe ao Legislativo e ao Judiciário exercerem um papel mais ativo nas questões que dizem respeito a manutenção da ordem constitucional, da democracia e da estabilidade institucional pelo estreitamento da relação civil-militar com o lado que publicamente se coloca contra a politização das FFAA.

O Congresso daria uma relevante contribuição para reafirmar a supremacia do poder civil, caso decidisse examinar questões que dizem respeito `a participação de militares da ativa no Executivo e sobre a designação de ministro da Ministério da Defesa. A indicação de militares da ativa para cargos no governo deveria seguir norma pela qual qualquer representante das Forças Armadas e da Polícia Militar que aceitar convite para integrar o Executivo, em qualquer nível, deveria passar automaticamente para a reserva. Por outro lado, a chefia do Ministério da Defesa, normalmente civil, poderia ser ocupada por oficial militar, se o indicado estiver na reserva por pelo menos sete anos e, caso não preencha esse requisito, com a expressa autorização do Congresso, como ocorre nos EUA.

*  Presidente do Centro de Defesa e Segurança Nacional e membro da Academia Paulista de Letras.

 

 

 

Rubens Barbosa*

 

O pronunciamento inaugural do novo ministro do exterior, Carlos França, traz de volta a atitude profissional da diplomacia. Simples, direto e objetivo, dentro daquilo que é possivel no atual momento, o discurso indicou que a política externa volta a ser uma política pública, a serviço dos interesses nacionais. O estilo “low profile” e o tom são distintos do que se ouviu nos últimos dois anos. A nova direção do Itamaraty segue o que ensinou o Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira, ao tomar posse em 1903: “não venho servir a um partido político: venho servir ao nosso Brasil, que todos desejamos ver unido, íntegro, forte e respeitado”.

Assim como as Forças Armadas, o Itamaraty é uma instituição de Estado, acima de interesses circunstanciais políticos ou ideológicos. A política externa, fundada nos principios constitucionais, é definida pelo presidente da República. A cara do Brasil no exterior hoje é a do presidente Bolsonaro. O Itamaraty, executor da atuação externa, em toda sua história, passando por vários regimes políticos, atuou como um fator moderador na defesa dos valores e Leia mais

Rubens Barbosa *

A expectativa era de que somente a partir do segundo semestre deste ano as articulações sobre as eleições presidenciais de 2022 estariam dominando a cena política. Na realidade, essas discussões cada vez mais deverão ocupar as atenções do meio político e da mídia distraídos em meio aos rompantes populistas bolsonaristas. A crise da saúde, gerada pela pandemia e o atraso do governo na compra das vacinas ocupam o noticiário, junto com as repercussões da aprovação do auxilio emergencial, da intervenção na Petrobras e da venda de armas.

Os partidos políticos e personalidades com perspectiva de se apresentarem como candidatos começam a se movimentar e a buscar os holofotes a fim de influir, de alguma maneira, no processo inicial das discussões.

É um lugar comum ressaltar a fragmentação do sistema partidário brasileiro, a falta de programas que sejam defendidos coerentemente por todas as legendas e o controle da máquina partidária por parte de lideranças personalistas e, em muitos casos, autoritárias. Ninguém ignora que uma reforma política, necessária para colocar um mínimo de ordem no quadro partidário, dificilmente será levada adiante, sobretudo, por falta de interesse da classe política.

No marco atual da cena brasileira, surgem nomes que certamente poderão estar presentes na eleição de 2022, por sua influência pessoal e não por força de seus partidos. Essa situação gera enormes distorções e faz com que a Leia mais

Rubens Barbosa*

A histórica vitória de Joe Biden será analisada por muitos anos. O resultado da eleição foi, surpreendentemente equilibrado, refletindo a profunda divisão do país. A onda azul, democrata, não ocorreu, mas a sociedade americana preferiu eleger um presidente moderado e conciliador, que promete reduzir o ódio e unir o pais. O resultado das urnas mostrou que o eleitor separou a figura do presidente falastrão do seu partido. O partido Republicano, que teve um desempenho muito melhor do que Trump, saiu fortalecido com maior número da deputados na Câmara de Representantes e com a possibilidade de manter a maioria no Senado.

A polarização política nos EUA vem se acentuando nas últimas décadas e esse quadro não deverá se alterar no futuro previsível, em função, entre outros fatores, do aprofundamento com a pandemia dos contrastes existentes no país mais rico e mais avançado do mundo. A crescente concentração de renda acentuou as desigualdades entre as pessoas, as regiões e entre os centros urbanos e as áreas rurais, fato agravado pelas consequências econômicas. O impasse, se o Senado continuar Republicano, dificultará a execução das reformas prometidas por Biden nas áreas de saúde, economia, energia, imigração, meio ambiente e no fortalecimento da democracia e dos direitos humanos.

Os EUA estão deixando de ser um país com maioria branca e calvinista para se tornar uma democracia multiracial e multicultural. Quase 75 milhões de eleitores se manifestaram contra um presidente com abordagem não convencional na política, negacionista, percebido como egoísta, mentiroso, vaidoso e que coloca seus interesses pessoais e eleitorais acima dos interesses do país. Trump impôs políticas que favoreceram o populismo, o protecionismo, o racismo e o isolacionaismo, sempre ressaltando que isso iria ampliar e emprego do trabalhador norte-americano e reforçaria a idéia de que os EUA sempre estariam em primeiro lugar. As políticas seguidas por Trump acentuaram o divórcio racial e os conflitos relacionados à imigração. Em alguns estados, os votos de jovens negros, latinos e muçulmanos foram maiores do que o esperado para o partido Republicano, apesar de algumas políticas de Trump terem sido claramente contrárias aos interesses dessas minorias. Acentua-se, assim, a divisão em torno de temas culturais, enquanto há mais convergência em torno das políticas econômicas, menos conflitivas visto que estão voltadas para o crescimento do emprego e da renda. Apesar da rejeição pessoal, as bandeiras que Trump levantou deverão permanecer. O movimento populista, nacionalista e conservador se fortaleceu com o voto nas áreas rurais, mais pobres, de maioria branca, sem instrução superior e de menor renda. Os republicanos emergem estranhamente como o partido da classe trabalhadora, mais afinado com os anseios da nova composição social e racial da sociedade norte-americana. Leia mais

Rubens Barbosa*

As relações entre civis e militares ao logo da história republicana nunca foram bem resolvidas. O pensamento e atitudes de cada lado se aproximam ou se distanciam por interesses comuns ou por questões ideológicas momentâneas.

Não faltam exemplos de cada uma dessas situações, a começar na proclamação da República, passando pelo tenentismo, pelo período Vargas, pelo movimento de 64 e agora com a forte presença militar em um governo civil eleito democraticamente. Nos últimos 35 anos, cabe ressaltar, as FFAA cumpriram exemplarmente seu papel constitucional, mas não se pode negar a ocorrência de tensões, de tempos em tempos, em grande medida por desconhecimento por parte da sociedade civil das atividades, prioridades e ações das Forças Armadas.

No tocante à politica interna, do lado militar, ainda não foi claramente resolvida a diferença da ação politica entre militares da ativa e da reserva. Do lado civil, para ficar nos tempos mais contemporâneos, desde as “vivandeiras de quarteis” até hoje com os que pedem a intervenção das FFAA e o fechamento do Congresso e do STF, prevalece a tentativa de ignorar os limites do Leia mais

Rubens Barbosa*

As análises e estudos das principais organizações internacionais sinalizam que a pandemia pode estender-se por um período maior do que o antecipado. A vacina contra a COVID 19 prometendo tardar para ser comercializada.

A recessão global vai ser profunda e demorada. As consequências sobre a economia e o comércio internacional poderão ser devastadoras, com grave queda do crescimento e do desemprego global.

A recuperação do Brasil não vai ser rápida, nem o país sairá mais forte, como alguns anunciam. Os efeitos sobre o Brasil hão de perdurar por muito tempo, caso medidas drásticas não forem tomadas. É tempo de repensar nossas vulnerabilidades e aproveitar para passar o Brasil a limpo, de modo a modernizá-lo com menor desigualdade regional e social. E também definir o lugar do Brasil no mundo, como uma das dez maiores economias, inserido de forma competitiva nos fluxos dinâmicos do comércio internacional.

O Executivo – levando em conta o pacto federativo – tem um compromisso inadiável com a aprovação e execução de reformas (sobretudo a tributária e a administrativa), e medidas regulatórias, simplificação e desburocratização para aumentar a competitividade da economia, tornar mais ágeis as agências reguladoras e Leia mais

Rubens Barbosa*

Como é natural, a quase totalidade das análises e comentários na imprensa falada, escrita, nas TVs e na mídia social se concentra hoje nos grandes desafios internos para superar a crise provocada pelo coronavirus.

Depois de a pandemia passar, o Brasil e o mundo serão outros.

Do ângulo interno, os desafios econômico-financeiros, sociais, de logística, de modernização do Estado, do fim dos privilégios, da violência e da corrupção vão ter de ser enfrentados como nunca antes. O Brasil deverá ser reconstruído. O orçamento de guerra determinou despesas indispensáveis para atender aos trabalhadores formais e informais e as empresas afetadas pela quase paralisia da economia doméstica e global. Como tratar o déficit publico e fiscal? Como sair da recessão? Como gerar crescimento e reduzir as desigualdades e o desemprego? Como ficará o equilíbrio federativo? A sociedade brasileira vai ter de enfrentar um período de decisões profundas sobre as prioridades nacionais, as contas públicas, o funcionamento do Estado, a reativação da economia, a reindustrialização, enfim, essas e outras vulnerabilidades que, diante da crise, ficaram evidentes.

As incertezas são crescentes. Segundo os ministros de comércio exterior do G-20, a economia global em 2020 poderá reduzir-se em 5 ou 6% e o comércio externo, entre 5 e 30%. Como evoluirá a economia e o comércio internacional? Como as Leia mais