Rubens Barbosa*

 

“A nova era que começa em 2021 poderá representar a perspectiva de Guerra contra a China em substituição à Guerra ao Terror? A seguir íntegra de artigo do diplomata Rubens Barbosa, publicado hoje na coluna Opinião:   Com o fim da Guerra Fria em 1989, restou uma única superpotência. Os EUA, imperial, moldaram o que chamaram de nova ordem internacional e por impuseram ações unilaterais. Os ataques contra as torres gêmeas de New York e ao Pentágono em Washington em 11 de setembro de 2001 colocaram fim a essa era. A quebra do mito da invencibilidade norte-americana e o primeiro ataque ao território americano desde 1814 afetaram profundamente a sociedade local e explicam, na política externa, a era de Guerra ao Terrorismo, iniciada com a invasão do Afeganistão contra o grupo islâmico Talibã para destruir os jihadistas da Al Qaeda, que assumiu a responsabilidade pelos ataques de 11 de setembro, e para buscar, vivo ou morto, Osama Bin Laden. A ação anti-terrorismo islâmico foi ampliada pela invasão do Iraque, justificada pelas “fake news” de que Saddam Hussein estava associado a Al Qaeda e possuía arsenal de armas de destruição em massa. A ocupação do Afeganistão e do Iraque, por inspiração neoconservadora do presidente George W. Bush, gerou alteração na Lei de Segurança Nacional prevendo ataques preventivos, mudança de regime (“regime change”) e reconstrução nacional (“nation building”), segundo os valores e as instituições norte-americanas (democracia, livre mercado, sistema político), sem levar em conta a cultura e as peculiaridades desses países. A política de reconstrução nacional foi aplicada em 19 países, entre os quais Síria, Líbia, Somália, com intervenções militares (drones) e de inteligência em 85 países que custaram milhares de vidas aos soldados americanos e aos civis desses países e gastos de mais de 8 trilhões de dólares em 20 anos.

Contrário à guerra no Afeganistão como vice-presidente de Barak Obama, Joe Biden, durante a campanha presidencial de 2019, prometeu a retirada das FFAA dos EUA daquele país. Eleito presidente, manteve a promessa de campanha e a decisão de seu antecessor, Donald Trump, de retirar os militares até 31 de agosto. Em histórico pronunciamento colocou um final à mais longa guerra da história americana. Ao anunciar que estava começando um novo capítulo da política externa, Biden declarou que a saída do Afeganistão representava o fim de uma era que se iniciou em 2001. Contrariando Lincoln que dizia que “princípios importantes devem ser inflexíveis”, Biden seguiu o filosofo alemão que observou “não haver fatos eternos, como não há verdades absolutas”. Nas palavras do presidente dos EUA, “não mais haverá intervenção militar com a mobilização de tropas e tentativa de reconstrução de nações em outros países do mundo”. A pressão da política interna em um país dividido e radicalizado, consagrou a atitude de isolamento da maior potência global, com consequências e novas tensões no cenário internacional.

A afirmação de que os EUA não mais promoverão intervenções militares para a mudança de regime e a reconstrução nacional é tão histórica quanto a de John Kerry, Secretário de Estado do governo Obama, que declarou, em pronunciamento na OEA, que as intervenções militares americanas na América Latina não mais se repetiriam porque o governo dos EUA estava colocando um fim na famosa Doutrina Monroe, contra a presença e influência europeia nos países da região. As intervenções militares de Washington para a mudança de regime estiveram vinculadas aos interesses americanos de combate ao terrorismo, com todos os excessos (gastos, corrupção, tortura e ataque à população civil) ao redor do mundo, enquanto a Doutrina Monroe foi utilizada para defender interesses ideológicos (Cuba, República Dominicana, Nicarágua, Colômbia, Chile) e econômico-comerciais (Granada, Panamá, El Salvador, Guatemala).

Com o término da Guerra ao Terrorismo, simbolicamente representado pela desordenada retirada das tropas do Afeganistão, a nova estratégia geopolítica de Washington deverá ser alterada. Na política externa, a prioridade do Oriente Médio deverá passar para o Sudeste da Ásia com foco na crescente disputa tecnológica, comercial e, no futuro, militar, com a China, considerada “adversária” pelo establishment norte-americano. Internamente, a preocupação com a segurança nacional passará a ser o combate ao terrorismo interno. O isolacionismo dos EUA, com o país voltado para dentro, reforça a possibilidade de ações radicais da direita conservadora e a possibilidade de ações de lobos solitários próximos de organizações terroristas no exterior.

A nova era que começa em 2021 poderá representar a perspectiva de Guerra contra a China em substituição a Guerra ao Terror? O relacionamento entre os EUA e a China vem se deteriorando nos últimos cinco anos na direção da desintegração e confrontação. Se essa tendência persistir, daqui a 20 anos, o mundo estará mais perigoso. Para tentar reduzir esse risco, Biden telefonou a Xi Jinping, na véspera do 11/9, para manifestar “o interesse dos EUA na paz e na estabilidade global e afirmar a responsabilidade dos dois países em assegurar que a competição não se torne em conflito”.

Nesse quadro de grandes transformações, qual o lugar do Brasil no mundo na defesa de seus interesses? A pergunta deverá ser respondida pela sociedade brasileira nas eleições presidenciais de outubro de 2022.”

*      Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

 

Este boletim destina-se a divulgar as principais atividades da Embaixada do Brasil em Moscou e a veicular informações sobre as distintas vertentes das relações entre o Brasil e a Rússia. Principais tópicos nesta edição: Participação brasileira no Forum Army e Jogos Militares, Podcast “Janela para o Brasil”, participação de artistas brasileiros no festival de arte em Vyksa, e a visita do Presidente do Grupo Bandeirantes a Moscou, dentre outros assuntos.

https://mailchi.mp/81d309ee8a76/panorama-brasil-rssia-abril-8880317?e=d8f28b739e

 

Rubens Barbosa*

 

Na semana passada, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, Jake Sullivan, visitou o Brasil e “abordou uma gama de prioridades estratégicas durante as reuniões de alto escalão com o governo brasileiro”, segundo comunicado oficial do governo dos EUA.

A aproximação com o governo Bolsonaro deve ser vista como uma ação pragmática dentro do contexto mais amplo da política externa e dos interesses geopolíticos dos EUA. A vinda da missão norte-americana de alto nível teve a ver, em especial, com o interesse do governo Biden de se contrapor à China no setor tecnológico, um dos componentes da confrontação geopolítica entre os dois países.  A exclusão das empresas chinesas do 5G na Europa, África e Américas é uma das principais prioridades da diplomacia americana.

No contexto dessa visão estratégica, o governo Biden, enfrentando oposição da ala progressista do Partido, optou por fazer um gesto ao governo Bolsonaro ao oferecer a oportunidade do Brasil se tornar um sócio global da OTAN. A Leia mais

 

Editado pela Embaixada do Brasil em Moscou, este boletim de notícias destina-se a divulgar as principais atividades da Embaixada do Brasil em Moscou e a veicular informações sobre as distintas vertentes das relações entre o Brasil e a Rússia. Para a íntegra das matérias: https://mailchi.mp/32d6df27dee3/panorama-brasil-rssia-abril-8874401?e=d8f28b739e

Renato Whitaker*

 

No dia 31 de maio, o governo chinês, através de um encontro do Politburo do Partido Comunista da China, anunciou que o limite máximo de crianças permissíveis por casais urbanos poderia aumentar de 2 para 3. No país que tornou-se notório pela promulgação da chamada “Política do Filho Único” em 1979 (que restringia casais, na maioria dos casos, a um limite de um prole) a notícia pode chegar a espantar.  Segue, porém, progressivas flexibilizações dessa imposição demográfica, a mais notável sendo a ampliação do limite máximo de 1 criança a 2 em 2016.

O raciocínio por trás dessas medidas se baseia em preocupações com o envelhecimento futuro do povo chinês em relação à proporcionalidade de trabalhadores ativos. Esse fenômeno foi sublinhado pelo último censo nacional chinês conduzido no ano passado que revelou que a proporção da população ativa (entre 15 a 59 anos) caiu de 70.1% de uma década atrás a 63.3%, e que a proporção de idosos (pessoas de 65 anos ou mais) aumentou de 8.9% a 13.5%. De acordo com a agência noticiaria oficial Xinhua, o governo de Beijing também considera implementar reformas no sistema da pensão nacional, inclusive em aumentar a idade de aposentadoria.

Se o objetivo em aumentar o limite de procriação, porém, seja de impulsioná-la, estadistas chineses podem se decepcionar logo mais. A taxa de fertilidade total caiu precipitosamente desde antes da Política do Filho Único e permaneceu menor do que a taxa mínima de reposição populacional de 2.1 crianças por mulher desde 1990. No censo do ano passado, foi registrado como sendo 1.3, ou seja, o aumentar do limite de nascimentos por casal cinco anos atrás não resultou em um aumento efetivo da fertilidade e há poucas razões para acreditar que aumentar para três, ou até mais, resultará nos ganhos desejados a curto prazo.

Afinal, a racionalidade econômica, mais do que os limites políticos, influencia a decisão de quantos filhos ter para muitas mulheres na China. Os altos custos de vida, inclusivo os de criar e nutrir a vida, são frequentemente apontados como os principais fatores que deprimem o desejo de ter mais filhos. Mesmo propostas de bônus e auxílios para casais que parem mais filhos, como historicamente tem-se mostrado em outros casos, não devem ser um incentivo suficiente para influir nessa decisão. A Xinhua também reporta, todavia, que medidas mais estruturais, como a melhoria na qualidade e no custo da saúde neonatal e educação infantil, estão sendo consideradas.

Como mães no Japão vizinho descobriram décadas antes, as exigências da vida moderna, urbana e economicamente ativa são difíceis de equilibrar com uma família ampla. De fato, mesmo com um aumento na natalidade resultaria numa proporção maior dependentes, pois os cidadãos ativos terão que criar a nova geração de infantes e cuidar a velha geração de idosos. Ademais, três ou mais décadas de propaganda oficial urgindo a criação de um único filho não é uma influência que se desfaz em poucos anos.

Para a economia chinesa, a estagnação do seu crescimento populacional (previsto a bater seu ápice e regredir em algum momento dessa década) provavelmente deprimirá o mercado consumidor chinês, afetando o status do país como o grande mercado importador/exportador. Como no Japão, deve haver um aumento no consumo e investimento do setor médico (principalmente geriátrico) e da automação. Para o Brasil, essa tendência afetará a posição crucial que China tem como nosso principal mercado de exportação nas décadas a seguir, particularmente no tão poderoso ramo de agropecuária.

Notavelmente faltando dessa nova política são considerações ambientais. A pressão ecológica que uma enorme população ainda crescente, e cada vez mais avançadas nos padrões de vida e de consumo, não figurou como uma razão para aceitar, encarar e até defender o decrescimento da população e o seu melhor equilibro com os biomas da nação. No que concerne os debates acerca da organização, estrutura e ambição da economia chinesa, claramente não parece ser apegada à nova filosofia de decrescimento (“degrowth”, em inglês), pois a robustez e dinamicidade da economia chinesa figura-se como uma ferramenta importante para a estabilidade social.

 Pesquisador de Risco Político, Relações Internacionais e Demografia

 

Fontes:

” China’s changing child policy: what does it mean?”, Population Matters, 1 Junho 2021

” China birthrate slumps as experts blame changing attitudes”,The Guardian, 10 Fevereiro 2021

“Why China Is Struggling to Boost Its Birthrate”, Bloomberg, 11 Maio 2021

“China census: Data shows slowest population growth in decades”, BBC, 11 Maio 2021

“China to support couples having third child “, Xinhua, 31 Maio 2021

“China easing birth limits further to cope with aging society”, Associated Press, 31 Maio 2021

“China’s new three-child policy draws scepticism, cost questions”, Reuters, 1 Junho 2021

“Three-child policy: China lifts cap on births in major policy shift”, Reuters, 1 Julho 2021

“Explainer: The cost of having a child in China”, Reuters,  1 Julho 2021

“Is China’s birth rate low enough to cause population crisis?”, Global Times, 13 Maio 2021.

Dados do Banco Mundial e do MDIC

Rubens Barbosa*

 

Espera-se para esta semana, a conclusão dos entendimentos entre os Estados Unidos e o Irã a fim de definir as condições para a volta do governo Biden ao acordo nuclear, abandonado por Trump e, por isso, desconsiderado por Teerã.

Por seu interesse e oportunidade, transcrevo a descrição que o ex-embaixador da França nos EUA, Gerard Araud, fez dos entendimentos sobre esse importante acordo. No livro Passeport Diplomatique (Grasset,2019), Araud, na época diretor político do Quai D’Orsay e negociador francês nas tratativas com o Irã, comenta as negociações encetadas pelo Brasil e Turquia com o Irã, segundo a visão dos países que negociaram com o governo iraniano.

A iniciativa brasileira e turca de levar adiante a negociação, na interpretação de Lula e de seu ministro do exterior, resultou de pedido formulado por carta do presidente Obama, na qual ressaltava que os EUA apoiavam a proposta do ex-diretor geral da Agência Internacional de Energia Atômica no sentido de que o Irã transferisse 1.200 quilos de seu urânio de baixo enriquecimento para fora do país (Turquia). O presidente dos EUA lembra que havia pedido Leia mais

Rubens Barbosa*

 

A Quinta Sessão Plenária do 19º Comitê Central do Partido Comunista da China (PCCh), concluída em 29 de outubro, apresentou as linhas gerais do 14º Plano Quinquenal econômico e social do país (2021-25), com os objetivos gerais para os próximos cinco anos e o planejamento a médio prazo, até 2035.

Mantendo a retórica de “paz e desenvolvimento”, o PCCh traçou as principais linhas estratégicas levando em conta, sobretudo, a crescente competição global. Os documentos divulgados pelo PCCh, indicam que as lideranças do Partido, refletindo as incertezas no cenário global, buscaram mudanças em três áreas:  fortalecimento da economia, auto-suficiência (mercado interno e indústria) e novas políticas sobre mudança de clima.

A visão de futuro dos líderes chineses abandona a ênfase no crescimento econômico com o aumento do PIB e passa a focar “o aumento significativo no poderio econômico e tecnológico” até 2035, com foco em questões estruturais e qualidade de vida. No comunicado final do Plenário do Congresso, não se fixa uma taxa de crescimento para 2035 e se menciona somente o objetivo de alcançar, em termos de PIB per capita, o nível de países moderadamente desenvolvidos. Manter o foco no crescimento faz sentido para a China em um momento de competição com os EUA, no que o comunicado chama de “profundos ajustes no equilíbrio de poder internacional”. Uma grande economia vai “assegurar que a China tenha recursos necessários para a defesa nacional e a pesquisa cientifica”. Em vista da gravidade da crise pandêmica, a China teve de adiar o projeto da Rota da Seda (Belt and Road Initiative) com um custo de 1 trilhão de dólares em mais de 100 países, como uma forma de projetar seu poderio econômico além fronteiras.

As sanções dos EUA e as restrições à compra de semicondutores pelas empresas chinesas forçaram mudanças na atitude da liderança do PCCh no tocante à dependência de tecnologia do exterior e a necessidade de buscar a auto-suficiência em áreas consideradas estratégicas. As vulnerabilidades da China foram exploradas geopoliticamente pelos EUA, apesar dos custos econômicos e da oposição da indústria. O Plenário do Partido afirmou que “auto-suficiência em ciência e tecnologia é um pilar estratégico do desenvolvimento nacional” e demandou que “importantes avanços sejam conseguidos em tecnologias críticas” para que a China se torne “líder global em inovação”. Essa determinação, já estava presente no plano “Made in China 2025” adotado em 2017, para o avanço na política industrial, com resultados concretos em duas áreas nas quais o país mostra agora liderança global: tecnologia 5G e 6G e inteligência artificial.

A liderança chinesa passou a ver na política ambiental e de mudança de clima uma forma de ganhar prestígio global e de obter benefícios econômicos. A proteção ambiental tem sido uma prioridade crescente para as autoridades chinesas, como indica o acordo de cooperação assinado com os EUA visando a uma posição comum na COP 26 quando se discutirá o Acordo de Paris. Na Conferência do Clima, em abril passado, Xi Jinping anunciou que a China fixou que o pico das emissões de gás carbono será em 2030 e, em 2060, será atingida a meta de emissão zero. Embora ambiciosas, os objetivos anunciados indicam um envolvimento crescente da China nas discussões sobre políticas ambientais, com potenciais reflexos sobre outros países.

Enquanto a China faz seu planejamento com visão de futuro, o Brasil, perdido na crise da pandemia, não tem e não discute medidas e políticas de médio e longo prazo. A economia registrou uma queda de 3,1% em 2020 e se projeta em 2021 um crescimento de cerca de 2,5%, ou 3% em estimativas mais otimistas. As questões fiscais, a ausência de reformas, a queda no crescimento do comércio exterior e nos investimentos externos não prenunciam uma saída em V como repetido pelo ministro da Economia. Por outro lado, o baixo crescimento da economia nos últimos anos, agravado pela pandemia, fez com que o Brasil tenha deixado de ser uma das dez maiores economias do globo, segundo o IBRE/FGV. Em termo de PIB em dólares, este ano, Canadá, Coreia do Sul e Rússia devem ultrapassar o Brasil que cairá para a 12 posição, depois de ter chegado em 2011, ao sétimo lugar no mundo.

A preocupação aumenta quando se verifica não haver um plano claro na saída da crise atual, nem prioridades para avanços econômicos, sociais e tecnológicos. Sem maior discussão, o governo divulgou a Estratégia Federal de Desenvolvimento para o Brasil no período de 2020 a 2031, com cinco eixos: econômico, institucional, infraestrutura, ambiental e social. Trata-se um uma medida positiva, mas tímida, que apenas esboça essa preocupação. O Congresso e a sociedade civil deveriam ser chamados a participar da análise e discussão dessa estratégia. Dois aspectos chamam a atenção no documento do governo federal: a ausência de uma clara prioridade para a inovação e a tecnologia, como está fazendo a China, e a inexistência de metas claras no tocante à preservação da floresta amazônica e mudança de clima, duas das vulnerabilidades do Brasil no atual cenário internacional.

 

 

*      Presidente do IRICE e membro da Academia Paulista de Letras

 

 

 

Agência Virtù News

30 de abril 2021

 

VirtùNews entrevista Rubens Barbosa, ex-embaixador do Brasil em Washington e presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice). Na conversa, Barbosa comenta a reorientação na política externa nacional, fala sobre a diplomacia da vacina e analisa o declínio brasileiro na liderança regional.

A substituição de Ernesto Araújo por Carlos França, na avaliação de Barbosa, afastou a política externa da esfera mais ideológica do governo de Jair Bolsonaro. “A nomeação do Carlos França foi muito importante, porque as prioridades da política externa brasileira sempre foram as mesmas, o que mudava eram as ênfases”, afirmou Barbosa. “Ernesto Araújo foi um ponto fora da curva. O Carlos França levou a política externa para o seu leito normal, seu leito profissional.”

Para o embaixador, a reorientação foi sentida na carta enviada por Bolsonaro ao presidente dos EUA, Joe Biden, a respeito dos compromissos assumidos pelo Brasil no combate ao desmatamento e na redução da emissão de carbono. É o início do esforço de reverter o isolamento internacional e recuperar a imagem do Itamaraty. O País, agora, será cobrado pelas suas promessas ambientais e terá que demonstrar ações concretas para reverter a desconfiança externa.

Politização das vacinas

Com relação ao acesso a vacinas, Barbosa avaliou que há uma grande falta de solidariedade entre as nações. Os grandes produtores, principalmente a China e a Índia, têm usado a venda de imunizantes como ferramenta no jogo internacional de influência geopolítica. É o que faz a Rússia e o que começam a fazer os EUA. O Brasil deverá se candidatar a receber partes das 60 milhões de doses excedentes da AstraZeneca que o governo norte-americano poderá distribuir, mas, para o embaixador, uma boa parte desses imunizantes deverá ir para a Índia, em boa medida por causa da importância estratégica dos indianos no contexto de disputa dos EUA com a China.

Barbosa destacou que os sinais emitidos pelo governo Biden, até aqui, apontam para um enfraquecimento da relação bilateral com os EUA, mas os norte-americanos não desejam uma confrontação. “É um momento de estender a mão. Mas a política externa americana, com Biden, mudou, e o meio ambiente é central”, disse. “Não vai entrar um tostão em convênios externos enquanto o Brasil não apresentar resultados concretos na redução do desmatamento e de práticas ilegais.”

O embaixador comentou ainda os desentendimentos entre os países do Mercosul e as dificuldades na conclusão do acordo comercial com a União Europeia. “A abertura comercial depende de reformas, como a tributária. Precisamos de uma reforma do estado, uma reforma administrativa, por causa da perda de competitividade “, disse Barbosa. “Os acordos ficam emperrados por causa da burocracia e da regulamentação. O resultado é a perda de nossa importância econômica.”

 

Rubens Barbosa*

 

O tom das relações entre o Brasil e os EUA, no início do governo Biden, foi definido pelas recentes declarações das porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado, segundo as quais “a prioridade é manter o diálogo e buscar oportunidades para trabalhar conjuntamente com o governo brasileiro nas questões em que haja Interesse Nacional comum pois existe uma relação econômica estratégica entre os dois países e o governo Biden não vai se limitar apenas a tratar de áreas em que haja discordância, seja em clima, direitos humanos, democracia ou outros”. A atitude do governo dos EUA pode ser explicada  pela decisão da Casa Branca de adotar uma postura inicial firme e assertiva em termos de política interna (combate a pandemia, vacinação, imigração) e uma posição cautelosa em política externa (acordo nuclear com o Irã, China, Rússia) para não confrontar seus críticos republicanos.

Nessa primeira fase do relacionamento com o Brasil, Washington decidiu adotar uma atitude de não confrontação,  inclusive na resposta de Biden a Bolsonaro, e iniciar conversas sobre diversos temas das relações bilaterais. Não deixa de ser uma atitude pragmática de ambos os lados e, do ponto de vista do governo brasileiro, a percepção de algum avanço. O governo americano, no entanto, não está alheio às manifestações públicas de grupos de pressão pedindo medidas duras contra o Brasil. O documento assinado por ex-ministros e negociadores norte-americanos, critica a política ambiental brasileira e pede medidas contra o Brasil, caso não haja mudança nas políticas de proteção a Amazônia e de mudança de clima. O trabalho Recomendações sobre o Brasil ao Presidente Biden, encaminhado por professores norte-americanos, brasileiros e diversas ONGs, faz duros reparos à política Leia mais

Por José Eduardo Barella – Valor Econômico, 29/01/2021

Como a cruzada contra o globalismo pauta as relações internacionais no governo de Jair Bolsonaro.

A Insistência de Ernesto Araújo em narrativa antiglobalista teria feito com que perdesse liderança entre pares diplomatas. Quando candidato, Jair Bolsonaro acenou com um “novo Itamaraty” para conduzir a política externa brasileira. Parece estar cumprindo a promessa.

Em dois anos, o comando da diplomacia brasileira abandonou décadas de atuação pautada pelo multilateralismo e princípio da não ingerência, entre outras diretrizes. Bolsonaro deu o tom: discutiu com o presidente da França, Emmanuel Macron, sobre as queimadas na Amazônia; lamentou a vitória de Alberto Fernández na eleição presidencial argentina; acusou o governo chinês de disseminar o “comunavírus” e virou as costas para a ONU.

Sob tal diretriz, o “novo Itamaraty” trocou as propostas de diálogos construtivos por uma cruzada contra o chamado globalismo – para a direita radical, o conjunto de teorias conspiratórias disseminadas por agências internacionais e governos de esquerda para impor o “marxismo cultural”, em oposição aos valores patrióticos, anticomunistas e cristãos.

Um extenso levantamento feito por pesquisadores acadêmicos analisou 705 discursos e entrevistas sobre política externa dos Leia mais