O DESAPARECIMENTO DO CENTRO

Por Rubens Barbosa*

Com o desaparecimento do voto moderado de centro, a votação do referendum que aprovou a saída do país da União Europeia mudou radicalmente o cenário político no Reino Unido. A busca desse voto sempre teve muita influência nas eleições britânicas. As eleições deixaram de ser uma disputa entre a esquerda (trabalhista) e a direita (partido conservador) acima das diferenças ideológicas econômicas e sociais. Quando as eleições são disputadas tendo como foco questões econômicas entre esquerda e direita, os partidos políticos podem escolher um ponto ao meio, mais moderado, e conquistar votos decisivos. Em contraposição, quando se trata de política de identidade ou questões que envolvam grandes reformas não há possibilidade de negociação. É mais fácil haver compromisso em questões econômicas, como impostos e salários, e muito mais difícil quando se trata de noções como soberania e papel do Estado.

Com a discussão sobre o BREXIT como tópico principal da eleição britânica de 12 de dezembro, o voto de centro terá pouca influência pela polarização entre os que querem sair e os que querem permanecer na UE. Desapareceu o senso comum de que o partido que pudesse focalizar as preocupações do eleitor de centro poderia ganhar, enquanto que os partidos que buscassem os extremos seriam derrotados.

As posições moderadas de centro também estão desaparecendo em muitos países tendo como pano de fundo a insatisfação da população com a crescente concentração de renda, a pobreza e a falta de oportunidades de emprego. Essa frustração se materializa em manifestações e confrontações em países como Líbano, Iraque, Hong Kong, França e, na América do Sul, no Chile e na Bolívia. Essa reação não representa disputas entre os partidos de esquerda e direita por reformas sociais, mas a luta da população, sobretudo dos jovens sem liderança e sem coloração partidária, contra o establishment, ou seja,  o governo da vez.

As situações descritas acima estão gerando crescente instabilidade política, confrontações violentas e impasse institucional, sem perspectiva de solução pela ausência de negociações possíveis.

No caso do Brasil, nos últimos vinte anos, a polarização ideológica começou com a ação política do “nós contra eles” e culminou com a campanha eleitoral de outubro passado. A eleição de 2018 foi um divisor de águas. Pela primeira vez na história recente do país, surgiu, com sucesso, um candidato e um partido assumidamente de direita, que disputaram a presidência contra representante da esquerda e de uma centro-esquerda fragmentada. O segundo turno, polarizado entre direita e esquerda, acentuou a divisão interna como nunca antes no país, refletindo, em parte, a crescente influência da mídia social. Diferente dos EUA em que a divisão interna tem crescido nos últimos 30 anos e onde a insatisfação da população contra o governo desaguou na eleição de Donald Trump, o Brasil, com exceção da maior parte do período autoritário, sempre se caracterizou pela busca da conciliação e do entendimento entre as diferentes tendências politicas. Nos últimos anos, as visões ideológicas e populistas que passaram a ter grande influência, e as crises políticas, sobretudo em 2016, com o impedimento da presidente Dilma Rousseff, fizeram com que posições radicais de esquerda e de direita fossem gradualmente eliminando as percepções centristas mais moderadas. Pouco antes da eleição de outubro, para evitar os extremos, chegou a haver a tentativa de busca de uma terceira via, de centro, moderada, que não teve condição de prosperar.

A eleição de um presidente e a grande votação de um partido, ambos com uma agenda de direita conservadora nos costumes e liberal na economia, mudou o quadro político interno. Depois da eleição, fragilizada, com seu líder condenado e preso, a esquerda, desorganizada, estava sem efetiva capacidade de fazer oposição ao governo. Apesar disso, a narrativa das forças de direita continuou a insistir que esse grupo era o único que poderia ser uma ameaça à volta da esquerda e do comunismo e a tudo apostar na manutenção do clima de polarização política.

A decisão do STF sobre a prisão em segunda instância e a saída da prisão da principal liderança da oposição reforçam a retórica da polarização e da radicalização, justo no momento em que forças políticas começavam a articular a formação de um centro moderado.  Evitando os extremos de direita e de esquerda, essa posição superaria os antagonismos radicais com uma agenda liberal na economia, preocupação com a desigualdade social, sem excessos nos costumes e com uma visão de mundo sem ideologia e sem alinhamentos automáticos, colocando o Brasil em primeiro lugar.

No novo cenário da política interna, a oposição, agora com um líder que, em seus primeiros pronunciamentos mostrou-se mais a esquerda do que até aqui esteve, e que promete percorrer o país para atacar as reformas e defender seu ideário ideológico, só tenderá a acirrar a contestação ao governo. AA direita interessa essa radicalização para manter unidos e atuantes seus seguidores e para atrair parcelas do centro com a ameaça da volta da esquerda ao poder, como ocorreu na eleição presidencial.

O desaparecimento do centro – se vier a ocorrer – será um retrocesso e poderá acarretar, no limite, até a confrontação física entre os mais radicais de ambos os lados. A ampla agenda de reformas em discussão no Congresso e a perspectiva de crescimento da economia aconselham a busca de moderação para evitar a instabilidade politica que poderá ameaçar a volta do investimento e a redução do desemprego.

Com visão de futuro e buscando o fortalecimento das instituições, o Brasil deve espelhar-se em países onde no cenário interno convivem forças de todos os espectros políticos. A sociedade brasileira não tem alternativa senão buscar rapidamente a formação de um centro político forte que evite a polarização e o crescimento inevitável da radicalização, que possam colocar em risco a democracia.

*Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (IRICE)

FORTALECIMENTO DA CAMEX

Por Rubens Barbosa*

Depois de longa discussão dentro do governo, foi divulgado, no último dia 4, decreto que regulamenta a Câmara de Comércio Exterior (CAMEX) do Ministério da Economia. Trata-se da mais profunda modificação desde sua criação.

A Camex tem por competência formular a adoção, a implementação e a coordenação de políticas e de atividades relativas ao comércio exterior de bens e serviços, além do financiamento das exportações, com vistas a promover o aumento da produtividade e da competitividade do país. Também competem à CAMEX questões relacionadas aos investimentos estrangeiros diretos e aos investimentos brasileiros no exterior,

Passam a integrar a CAMEX o Conselho de Estratégia Comercial, o Comitê-Executivo de Gestão, a Secretaria-Executiva, o Conselho Consultivo do Setor Privado, o Comitê de Financiamento e Garantia das Exportações, o de Alterações Tarifárias, o de Defesa Comercial além do Comitê Nacional de Facilitação de Comércio. (mais…)

Seminário: DIPLOMACIA AMBIENTAL

DIPLOMACIA AMBIENTAL E O ACORDO MERCOSUL-UE

O IRICE e a Associação Brasileira do Agronegócio (ABAG) realizam dia 5 de novembro próximo um segundo encontro sobre Diplomacia Ambiental, nesta oportunidade destacando o Acordo Mercosul-UE. Os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil em acordos, convenções e atos internacionais nas últimas décadas, desde a Rio 92, e sua implementação pelo governo brasileiro serão analisados e discutidos por especialistas. O tema ganha relevância na medida em que a política ambiental vem sendo usada como um instrumento da política comercial, refletida concretamente no Capítulo sobre Desenvolvimento Sustentável incluído no Acordo Mercosul-União Europeia. O evento acontece no auditório do Centro de Integração Empresa-Escola (CIEE), na Rua Tabapuã, 469. Inscrições, gratuitas, através do e-mail: forum@abag.com.br.

O BRASIL E O ATLÂNTICO SUL

Por Rubens Barbosa*

Na definição do Conceito Estratégico da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em 2010, o Atlântico Sul não foi incluído como uma área geoestratégica prioritária, mas não se exclui totalmente a possibilidade de sua atuação “onde possível e quando necessário”, caso os interesses dos membros sejam ameaçados. Portugal, nessa discussão, apoiou a Iniciativa da Bacia do Atlântico, que previa a unificação dos oceanos, com incorporação dos assuntos do Atlântico Sul no escopo estratégico da organização.

Em pronunciamento recente, o atual ministro da defesa Nacional, Joao Gomes Cravinho, observou que “a segurança do espaço euro-Atlântico tem de ser pensada a partir das pontes que o Atlântico permite criar e para as quais Portugal tem um posicionamento privilegiado para contribuir ativamente”.

Dentro desse entendimento, Portugal está criando o Centro para a Defesa do Atlântico (CeDA) na ilha dos Açores. O CeDA tem como objetivo a reflexão, a capacitação e (mais…)

INFRAESTRUTURA E COMÉRCIO EXTERIOR

Por Rubens Babosa*

A perda da competitividade da economia brasileira é um problema sistêmico e sua correção demandará um enorme esforço por parte do governo e do setor privado para recolocar o Brasil na rota do crescimento a níveis elevados e do aumento das exportações de produtos manufaturados.

O comércio exterior é uma das áreas mais afetadas pelos altos custos e ineficiências da economia.  O Brasil possui sérias deficiências na infraestrutura de distribuição de bens e serviços. A densidade das malhas rodoviárias e ferroviárias está bem abaixo dos países desenvolvidos e até mesmo dos emergentes. Em avaliações qualitativas recentes em matéria de rodovias, ferrovias, portos e aeroportos, o pais apresenta padrões mais desfavoráveis, se comparado com outros grupos de países.

As despesas de transporte, manutenção da frota e armazenagem representam uma fração relevante dos custos das indústrias e dos exportadores. As limitações na infraestrutura logística, como a saturação da capacidade e a precária conservação de grande parte das rodovias e vias de transporte urbano acarretam no Brasil custos bem superiores aos que são arcados por indústrias instaladas em países com melhor infraestrutura e (mais…)

INTERLOCUÇÃO – PROGRAMA TV ESTADÃO-IRICE

Primeira Edição – 23/08/2019

Dentro das iniciativas do IRICE para 2019, começou a parceria TV Estado e o Instituto para a transmissão, inicialmente mensal,  de programa sobre política externa e comercio exterior. Assim sendo, foi ao ar no dia 23 de agosto passado a primeira edição do programa Interlocução:  O Brasil no Mundo.  Nesse primeiro encontro, com a participação também do editor internacional do Estadão,  Rodrigo Cavalheiro, foram discutidas questões relativas à eleição americana, o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul e as relações bilaterais entre Brasil e EUA. Para assistir à íntegra da entrevista: https://youtu.be/RJa9bP8pSUw.

 

DIPLOMACIA AMBIENTAL

Por Rubens  Barbosa*

O debate atual sobre as queimadas, o desmatamento e o garimpo ilegais ganhou repercussão internacional e transformou-se na mais grave crise externa brasileira desde os anos 70 e 80, causada também por críticas às politicas de meio ambiente e de direitos humanos.

No Brasil, vivíamos em um governo militar e um de seus dogmas era “Amazônia, integrar para não entregar”. A visão defensiva prevalecia em 1972, por ocasião da histórica Conferência Internacional sobre Meio Ambiente, organizada pela ONU, em Estocolmo. A retórica do atual governo repete os argumentos dos militares de então. Na época, a sanção foi politica, com a deterioração da imagem do Brasil no exterior.

No último dia 29, sucedi ao naturalista e homem público Paulo Nogueira Neto na Academia Paulista de Letras. Em discurso de posse, recordei a atualidade da atuação de Nogueira Neto, responsável pela politica ambiental, pela legislação interna e pela criação de estruturas administrativas como a SEMA e Ibama, que desaguaram no atual Ministério de Meio Ambiente. No âmbito governamental, participou da referida Conferência de Estocolmo de Chefes de Estado. A atuação do Brasil é lembrada por (mais…)

EX EMBAIXADOR RUBENS BARBOSA TOMA POSSE NA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS

Com a presença de eminentes acadêmicos e ilustres convidados, ocorreu no dia 29 de agosto passado a cerimônia de posse do diplomata e ex Embaixador Rubens Barbosa na Academia Paulista de Letras, eleito em junho passado. Em seu discurso de posse (https://drive.google.com/open?id=1ve_NA9Bb7NkxKPhgEw30aw4ZZL_lFRop),  o diplomata agradeceu o reconhecimento da Academia e  manifestou sua honra em ocupar  a cadeira 10, cujo patrono é o emérito Cesário Mota Junior.  A cadeira foi ocupada entre 1991 e 2019 pelo naturalista e professor Paulo Nogueira Neto, falecido no inicio deste ano.