BOM SENSO ACIMA DE TUDO  

Rubens Barbosa*

As análises e estudos das principais organizações internacionais sinalizam que a pandemia pode estender-se por um período maior do que o antecipado. A vacina contra a COVID 19 prometendo tardar para ser comercializada.

A recessão global vai ser profunda e demorada. As consequências sobre a economia e o comércio internacional poderão ser devastadoras, com grave queda do crescimento e do desemprego global.

A recuperação do Brasil não vai ser rápida, nem o país sairá mais forte, como alguns anunciam. Os efeitos sobre o Brasil hão de perdurar por muito tempo, caso medidas drásticas não forem tomadas. É tempo de repensar nossas vulnerabilidades e aproveitar para passar o Brasil a limpo, de modo a modernizá-lo com menor desigualdade regional e social. E também definir o lugar do Brasil no mundo, como uma das dez maiores economias, inserido de forma competitiva nos fluxos dinâmicos do comércio internacional.

O Executivo – levando em conta o pacto federativo – tem um compromisso inadiável com a aprovação e execução de reformas (sobretudo a tributária e a administrativa), e medidas regulatórias, simplificação e desburocratização para aumentar a competitividade da economia, tornar mais ágeis as agências reguladoras e (mais…)

DESAFIOS DO ACORDO MERCOSUL E UNIÃO EUROPÉIA

Rubens Barbosa*

Um fato novo complica o entendimento entre os países do Mercosul. Em abril, a Argentina informou que não mais acompanharia Brasil, Paraguai e Uruguai nas negociações em curso do Mercosul com outros países, como Canadá, Cingapura, Coreia do Sul, Líbano e Índia. Mas que manteria sua participação nos acordos, já concluídos e não assinados, com a União Europeia (UE) e com a Área de Livre Comércio da Europa (EFTA). Na semana passada, o governo argentino voltou atrás, num confuso comunicado, no qual ressalta que decidiu manter-se nas negociações conjuntamente, mas sempre levando em conta as sensibilidades dos setores menos competitivos (industriais). Embora querendo participar de todos os trabalhos e demandando a inclusão de cláusulas que resguardem os interesses argentinos futuros, Buenos Aires não se compromete com a conclusão das negociações em curso. O Chanceler Felipe Sola diz favorecer um regime de dupla velocidade, no qual a Argentina não fica fora dos acordos, mas quer ter a palavra final sobre como e quando passaria a fazer parte deles. Até meados do ano, o acordo Mercosul-UE deverá ser assinado. Como o governo argentino reagirá durante o processo de ratificação, se forem solicitadas modificações no texto do acordo, como ocorreu no caso do tratado UE-Canadá? Nuestros hermanos querem um Mercosul à la carte, o que aumenta a incerteza para todos, pela insegurança jurídica na aplicação dos compromissos assumidos. Flexibilização, se houver, tem de ser para todos.

Além dessa incerteza, menciono duas questões do lado brasileiro para o acesso ao mercado europeu: competitividade e meio ambiente.

Para aproveitar as preferências tarifárias, os produtos industriais deverão melhorar significativamente sua competitividade e passar a receber um tratamento isonômico em relação ao produzido em outros países. Sem que isso ocorra, apesar de a UE abrir seu mercado com tarifa zero de imediato para 75% de suas importações, será difícil competir no mercado europeu (mais…)

ENTREVISTA AO INSTITUTO MILLENIUM

Em entrevista exclusiva ao Instituto Millenium, o ex-embaixador do Brasil em Washington e Londres analisou os impactos da pandemia nas relações de comércio e como nós podemos ser afetados por isso. As incertezas que assolam o mundo em tempos de pandemia do novo Coronavírus devem gerar mudanças nas relações comerciais entre os países após o período mais grave da crise. A análise foi feita pelo diplomata Rubens Barbosa. https://www.institutomillenium.org.br/cen.

 

INSTITUTO ESCOLHAS – Entrevista do Mes

Embaixador Rubens Barbosa:  Acordo entre Mercosul e UE fica mais complicado sem preservação da Amazônia

Para o diplomata, política ambiental precisa sofrer correções e o Brasil tem que assumir o protagonismo –  Eduardo Geraque – 7/05/2020

Os esforços atuais, como não poderia deixar de ser, deveriam estar todos voltados para o combate à pandemia causada pelo coronavírus. Mas, no segundo semestre, na avaliação do embaixador Rubens Barbosa, que representou o Brasil em Londres (1994 a 1999), e em Washington (1999 a 2004), a questão ambiental vai entrar com tudo na discussão internacional. Principalmente, dentro do provável processo de aprovação, por parte dos parlamentos tanto europeus quanto do Mercosul, do acordo que ainda deve ser assinado entre os dois blocos comerciais. Sem mudanças de rotas na política ambiental em curso na Amazônia, por exemplo, os parlamentares dos vários países europeus dificilmente vão ratificar o acordo conforme o embaixador Barbosa afirma nesta entrevista para o Instituto Escolhas.

O também presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior (Irice) e da Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) analisa como o agronegócio brasileiro deve se comportar depois da crise atual e, principalmente, como ficará a polarização entre Estados Unidos e China neste novo cenário global. Segundo Barbosa, se as instituições multilaterais sobreviverem, elas devem ganhar uma nova roupagem.

No episódio #6 do podcast Escolhas no Ar, o embaixador Rubens Barbosa fala um pouco mais sobre o mundo que vai emergir pós-pandemia do coronavírus. Para ele, “a ONU terá que se reinventar e o debate ambiental vai emergir com toda a força”.  Clique aqui

Instituto Escolhas – O clima de polarização política que o Brasil está vivendo não atrapalha discussões mais profundas e sobre temas relevantes tanto internos quanto externos?

Embaixador Rubens Barbosa – A polarização no Brasil começou há uns 10 ou 15 anos, na base da ideia do nós contra eles, e continua com uma base ideológica muito forte. Entre os temas que nós vamos discutir, como a questão ambiental e o agronegócio, essa polarização vai continuar. Mas a minha expectativa é que nós temos algumas datas muito importantes pela frente que vão ter que receber um tratamento diferente por parte da sociedade brasileira. Uma delas, concretamente, é assinatura do acordo entre o Mercosul e a União Europeia que deve ocorrer, vamos dizer assim, em meados do ano. Depois dessa assinatura vai começar o processo de ratificação do acordo nos parlamentos europeus. Desde as eleições de outubro (mais…)

URANIO, TERRAS RARAS E RADIOISÓTOPOS

Rubens Barbosa*

Há um ano atrás, em seu discurso de posse, o ministro de Minas e Energia, Almirante Bento Albuquerque, que tão bem conhece o setor nuclear brasileiro, disse que o atual governo pretende “estabelecer um diálogo objetivo, desarmado e pragmático com a sociedade e com o mercado sobre o programa nuclear, fonte estratégica da matriz energética brasileira. O Brasil não pode se entregar ao preconceito e à desinformação desperdiçando duas vantagens competitivas raras que temos no cenário internacional – o domínio da tecnologia e do ciclo do combustível nuclear e a existência de grandes reservas de urânio em nosso território”.

Na pós pandemia, a redução das vulnerabilidades nacionais vai ser um dos desafios para o governo. Levando em conta as novas circunstâncias globais e a necessidade de o Brasil ter capacidade de assegurar suprimento de suas necessidades essenciais com base na produção local, além da manutenção da política que permita o monitoramento de materiais nucleares, torna-se urgente que sua exploração e comercialização sejam privatizadas.

Dada as características estratégicas da utilização desses minérios, seria importante associar o setor privado aos trabalhos da empresa Indústrias Nucleares do Brasil (INB), estatal responsável pela política de lavra e comercialização do urânio e das terras raras. As restrições orçamentárias, agravadas com o esforço de reconstrução do país, certamente vão continuar a (mais…)

INTERESSE NACIONAL DISCUTE A RECUPERAÇÃO NACIONAL

A REVISTA INTERESSE NACIONAL iniciará, a partir da semana próxima, uma série de diálogos ao vivo para tratar da recuperação do Brasil depois da crise pandêmica.
Vamos promover conversas sobre os desafios internos e externos que o Brasil terá pela frente para se ajustar ao novo ambiente doméstico e internacional. Serão diálogos com técnicos e formuladores de políticas públicas que possam dar sua contribuição para um pensamento estratégico de médio e longo prazo.
Esperamos com essas transmissões contribuir para que possamos começar a pensar em saídas para o Brasil que estejam acima de partidos e de ideologias.
Em breve será divulgada a programação completa, que poderá ser acompanhada também pelo Youtube
Conto com a sua audiência e participação.
Rubens Barbosa, Presidente

BRASIL DEPOIS DA COVID 19

Rubens Barbosa*

Como é natural, a quase totalidade das análises e comentários na imprensa falada, escrita, nas TVs e na mídia social se concentra hoje nos grandes desafios internos para superar a crise provocada pelo coronavirus.

Depois de a pandemia passar, o Brasil e o mundo serão outros.

Do ângulo interno, os desafios econômico-financeiros, sociais, de logística, de modernização do Estado, do fim dos privilégios, da violência e da corrupção vão ter de ser enfrentados como nunca antes. O Brasil deverá ser reconstruído. O orçamento de guerra determinou despesas indispensáveis para atender aos trabalhadores formais e informais e as empresas afetadas pela quase paralisia da economia doméstica e global. Como tratar o déficit publico e fiscal? Como sair da recessão? Como gerar crescimento e reduzir as desigualdades e o desemprego? Como ficará o equilíbrio federativo? A sociedade brasileira vai ter de enfrentar um período de decisões profundas sobre as prioridades nacionais, as contas públicas, o funcionamento do Estado, a reativação da economia, a reindustrialização, enfim, essas e outras vulnerabilidades que, diante da crise, ficaram evidentes.

As incertezas são crescentes. Segundo os ministros de comércio exterior do G-20, a economia global em 2020 poderá reduzir-se em 5 ou 6% e o comércio externo, entre 5 e 30%. Como evoluirá a economia e o comércio internacional? Como as (mais…)

A EVOLUÇÃO RECENTE DE ACONTECIMENTOS NA VENEZUELA

Podcast Colunistas Rádio USP  –  07 04 2020

Nesta edição, o Embaixador Rubens Barbosa analisa os fatos que pressionam o governo da Venezuela para a abertura de processo democrático. Há vários fatos que indicam esse processo, segundo Barbosa: o indiciamento pelos EUA do presidente Maduro e de toda a cúpula pelo transporte de narcotráfico para os Estados Unidos; queda significativa dos preços do petróleo no mercado internacional por conta da briga entre Arábia Saudita e Rússia; o agravamento da situação social e de saúde pelo coronavírus; e a saída de uma das maiores empresas petrolíferas da Venezuela.

O presidente Trump apresentou um plano de transição para a democracia que passa por alguns pontos: suspensão de todas as sanções econômicas, caso Maduro resolva abandonar o poder; a partir disso, seria criado um governo de transição, em que Maduro e Guaidó seriam afastados dessa sucessão; a Assembleia Nacional seria eleita e, por sua vez, elegeria um governo de transição, entre outras propostas. Esse plano, ressalta Barbosa, mostra que o governo americano abrandou a sua posição e aceita uma partilha de poder com membros contra o governo. “Embora ainda não se vislumbre saída próxima, essas iniciativas poderão ter um peso no processo interno, sobretudo pela epidemia e o preço do petróleo, que estão pressionando o governo de Maduro”, afirma.

Ouça no link acima a íntegra da coluna Diplomacia e Interesse Nacional.

O IMPACTO GEOPOLÍTICO DO CORONAVÍRUS

Rubens Barbosa*

A epidemia do coronavírus – a pior dos últimos cem anos – terá profundas consequências sobre um mundo globalizado, sem lideranças alinhadas e pouco solidários entre si. O impacto econômico e social vai ser profundo, com o  custo recaindo nos mais pobres, fracos e idosos e em países menos preparados e desenvolvidos.

Os efeitos sobre os países e sobre a economia global estão sendo sentidos e deverão se agravar antes de melhorar.

Como a geopolítica global poderá ficar afetada pela epidemia? O que poderá mudar no cenário global?

Duas observações iniciais. A crise atual mostrou que as fronteiras nacionais desapareceram com as facilidades do transporte aéreo e o imediatismo das comunicações. E que as políticas econômicas domésticas estão intimamente influenciadas pelo que ocorre no resto do mundo. Nenhum pais ou continente é uma ilha. Por outro lado, a extensão e a repercussão da crise, em larga medida, deriva do peso da China na economia global. No inicio da década, quando ocorreu a SARS, o pais representava 4% da economia global, hoje representa 17%. A China é a segunda economia mundial, o maior importador e (mais…)

CORONAVÍRUS E A FÓRMULA DE iPAT

Por Renato Whitaker *

No final de fevereiro desse ano, houve uma notícia curiosa: uma das consequências da disseminação do novo coronavírus (COVID-19) na China foi registrada pela agência espacial americana NASA, que detectou que a famosa poluição aérea sobre grandes partes do país (mais especificamente, índice detectáveis de dióxido de nitrogénio) despencaram precipitosamente[1]. Embora poderia haver outras explicações, como o advento do ano novo chinês no qual atividades econômicas diminuem, recentes reportagens de emissoras como Deutsche Welle, CNN[2] e Forbes[3] aumentam a credibilidade ao argumento que o refreio da economia chinesa (e da queima de carvão que abastece-a) causou não somente uma melhora na qualidade do ar chinês, mas também talvez salvará mais vidas humanas do que as baixas causadas por COVID-19[4].

Ecologistas, e outros que atuam na área ambiental, conceptualizam os danos ou efeitos nocivos que a atividade humana tem sobre o meio ambiente com a fórmula “iPAT” (ou i=PAT), onde “i” (o impacto humano) é igual a “P” (o tamanho da população) vezes “A” (a afluência ou os padrões de consumo médio de cada pessoa) vezes “T” (a eficiência tecnológica dos fatores de produção que criam a riqueza). Em suma, cada pessoa a mais é um consumidor que gera externalidades poluentes. Essa poluição (seja na produção dejetos, emissão de gases de efeito estufa ou expansão do desmatamento) aumenta conquanto o padrão de consumo médio da população cresce.

O fator “T” é o curinga da equação. Inovações tecnológicas podem diminuir a necessidade de insumos na produção de (mais…)