Rubens Barbosa*

No início de setembro, em reunião do BRICS, o Brasil exortou os governos da China,  Rússia e índia a encontrar uma saída para a Venezuela, cujo regime se tornou, segundo se afirmou, um foco de crime organizado, terrorismo, de tráfico de drogas e de ouro, além de não estar disposto a fornecer condições para eleições livres e justas. A solução demandada é a renúncia daqueles que atualmente detém o poder e sua concordância com a formação de um governo de união nacional.

Na semana passada, de passagem por Roraima, o secretário de Estado americano, Pompeu, com o Ministro Araújo, visitou acampamentos de refugiados venezuelanos em ato visando a favorecer a campanha de reeleição de Trump. O presidente da Câmara, Rodrigo Maia, com o apoio de ex-chanceleres, classificou a visita como “afronta `a diplomacia brasileira”, tendo Araújo considerado os comentários como “infundados”, e que “só teme a parceria (com os EUA), quem teme a democracia”.

Sem ter rompido relações com Caracas, o Brasil fechou a embaixada e os consulados na Venezuela e pediu a retirada de todos os diplomatas venezuelanos, declarando-os personae non gratae. Suspendendo a Venezuela no Mercosul, pelo descumprimento da Cláusula Democrática, o intercâmbio com o Brasil se reduziu a iniciativas isoladas de empresas nacionais exportadoras de alimentos. O Brasil trata dos assuntos com a Venezuela através do Grupo de Lima, alinhando-se às ações do governo dos EUA em relação às sanções unilaterais contra o regime de Maduro. No dia 8 de agosto, o governo da Venezuela solicitou ajuda do governo brasileiro para o combate a pandemia, especialmente na área de fronteira com um permanente fluxo de refugiados para o Brasil. Sem resposta até agora, no final de agosto, o Pro-sul, órgão de coordenação sul-americana, se reuniu para tratar de ações conjuntas para combater a pandemia e aparentemente não houve comunicação pelo Brasil da carta recebida e as recomendações feitas ignoraram a situação na Venezuela e o apelo humanitário.

Os parceiros regionais, em especial Brasil, Colômbia e EUA, na prática, suspenderam suas relações com a Venezuela, em função da politica de sanções econômicas contra o regime de Maduro. O vazio político e econômico criado abriu espaço para que países extra-regionais como Rússia, China, Irã e Turquia, além de Cuba, se tornassem parceiros importantes da Venezuela. Nesse contexto, a exortação brasileira foi ignorada.

Os EUA, em março passado, apresentaram uma proposta para a transição política do governo na Venezuela. O plano, chamado “Quadro Democrático para a Venezuela”, incluía a retirada das sanções econômicas, caso Nicolás Maduro, e o presidente da Assembleia Nacional, Juan Guaidó, mandatário autoproclamado do país, abrissem mão do poder. O país passaria a ser governado por um conselho de 5 membros escolhido pela assembleia até o fim de 2020, quando seriam realizadas eleições presidenciais e parlamentares. De seu lado, os EUA retirariam restrições sobre membros do governo e a venda do petróleo venezuelano, principal fonte de renda externa. A proposta foi apoiada pelo Brasil, mas nasceu morta por ter sido apresentada pelos EUA, e foi rejeitada de imediato pelo governo de Caracas.

O Brasil tem interesses concretos a resguardar, como a proteção da longa fronteira, combater tráfico de armas, drogas e ouro, proteger a floresta amazônica, apoiar medidas para conter a pandemia e reduzir o número de refugiados, receber a dívida comercial e financeira e manter o fornecimento de energia venezuelana para o estado de Roraima. Os interesses brasileiros estariam melhor resguardados, se o relacionamento com a Venezuela não fosse delegado a um Grupo e a outros países do hemisfério ou extra-regionais.

Nenhum outro pais estaria melhor posicionado para tomar a iniciativa de ressuscitar uma proposta semelhante `a dos EUA do que o Brasil. Cabe ressaltar que nunca foi interrompido o relacionamento entre as Forças Armadas dos dois países. A última visita de alto nível à Venezuela foi no governo Temer, quando o Ministro da Defesa esteve duas vezes em território venezuelano para encontrar-se com sua contraparte para examinar a questão dos refugiados e do fornecimento continuado de energia para o Brasil. Longe dos holofotes, o canal militar privilegiado e preservado, talvez com a discreta ajuda de Cuba, poderia sondar a possibilidade de iniciar conversas visando a uma transição pacífica na politica venezuelana.

É senso comum que, em qualquer negociação, além da representatividade dos interlocutores, sempre se deve evitar encurralar e deixar o interlocutor sem alternativa. Há que se oferecer uma saída para o outro lado. Os militares tem experiência nisso, pois, negociaram a transição democrática com o elemento mais importante, a anistia – que não consta na proposta norte-americana. Pela sua atuação histórica no processo de integração regional e sobretudo, no atual momento, pelos seus interesses concretos, o Brasil teria credibilidade para iniciar conversas nessa linha, via diplomacia militar. O governo seria insuspeito por tudo o que tem declarado a respeito do governo de Caracas, mas o interesse nacional estaria sendo colocado acima de ideologias e de alinhamentos.

 

  •  Presidente do Instituto de Relações Internacionais e Comércio Exterior-IRICE