NOVOS VENTOS NO PLANALTO

Rubens Barbosa*

Os ventos no Palácio do Planalto poderão mudar com a nomeação do general Braga Neto para a chefia da Casa Civil e do Almirante Flavio Rocha para a Secretaria de Assuntos Estratégicos.

A Casa Civil, que deve coordenar todas as ações do governo federal, sai fortalecida e tem o potencial de transformar a maneira como o Executivo lida com o Legislativo e o Judiciário.  Com uma reviravolta nas atribuições ministeriais, a SAE passa a ter a responsabilidade da elaboração de subsídios para a formulação do planejamento estratégico e de ações externas de governo

A SAE, agora vinculada diretamente ao presidente da República, foi (mais…)

FRANÇA DIVIDIDA

Rubens Barbosa*

De passagem por Paris, procurei entender a controvérsia em curso hoje na França sobre a reforma da previdência social. O pais está dividido entre a pressão de parte da sociedade para preservar regimes especiais de aposentadorias e a necessidade de se ajustar a um mundo em rápida transformação.

A eleição presidencial de 2017 trouxe uma forte renovação na vida política da França. A vitória do presidente Macron contra o establishment e contra os extremos de direita e da esquerda, deu-lhe um mandato para reformar o pais. Criou-se uma grande expectativa pelo anúncio de reformas muito semelhantes à da atual agenda brasileira: reforma das relações trabalhistas, previdência social, redução de privilégios corporativos, tributária, educação, redução do gasto público e mudanças na economia para melhorar a competitividade dos produtos franceses. Depois de dois nos e meio de governo, não houve muitos avanços: os impostos não foram reduzidos, nem o desemprego (8,5%), o déficit comercial é crescente e poucas reformas foram efetuadas (35 horas de trabalho semanal continuam). A crise política e social vivida pelo governo Macron tem como substrato uma rápida deterioração da dívida pública que, em setembro, alcançou seu recorde histórico de 100,2% do PIB, sem perspectiva de redução do gasto.

As medidas iniciais geraram forte reação e manifestações dos coletes amarelos. A resposta do governo foi a organização de “grandes debates” para abordar todas as reivindicações populares e as reformas propostas. O resultado dos encontros mostrou algumas áreas de consenso nacional, como a urgência de providencias relacionadas com a mudança do (mais…)

O QUE A MORTE DE QASSEM SOLEIMANI IMPLICA PARA O BRASIL?

Por Renato Whitaker

Na madrugada de 3 de janeiro, um ataque aéreo lançado por um “drone” não tripulado dos Estados Unidos (EUA) matou pelo menos duas pessoas no Aeroporto Internacional de Bagdá. Uma das baixas foi o major-general iraniano Qasem Soleimani – e desde que seu assassinato fora confirmado, analistas de ramos desde a política e segurança internacional aos adivinhos dos mercados estão na alerta máxima para a ampliação do conflito e instabilidade no Oriente-Médio.

Qasem Soleimani era o comandante-mor da Força Quds – a brigada do Exército dos Guardiães da Revolução Islâmica responsável pela guerra clandestina, não convencional e do apoio a militâncias islâmicas aliadas ao Irão no entorno geográfico do país (de fato, a outra baixa confirmada na noite do ataque foi o chefe subalterno de um grupo militante iraquiano apoiado por Teerã).  O Exército dos Guardiões é um poder militar paralelo na República Islâmica e, crescentemente, um poder político considerável. Soleimani era sublinhado como sendo a segunda pessoa mais importante no aparato governamental iraniano; seu assassinato já foi apresentado como sendo o equivalente à morte de o chefe da câmara ou até a um vice-presidente em um sistema governamental presidencialista.

Os EUA e Irão estão num embate por décadas pela controle e influência geopolítica no Oriente Médio, particularmente nos moldes da competição milenar entre poderes políticos dos mulçumanos sunitas e xiitas. Em anos mais recentes, esse (mais…)

O DESAPARECIMENTO DO CENTRO

Por Rubens Barbosa*

Com o desaparecimento do voto moderado de centro, a votação do referendum que aprovou a saída do país da União Europeia mudou radicalmente o cenário político no Reino Unido. A busca desse voto sempre teve muita influência nas eleições britânicas. As eleições deixaram de ser uma disputa entre a esquerda (trabalhista) e a direita (partido conservador) acima das diferenças ideológicas econômicas e sociais. Quando as eleições são disputadas tendo como foco questões econômicas entre esquerda e direita, os partidos políticos podem escolher um ponto ao meio, mais moderado, e conquistar votos decisivos. Em contraposição, quando se trata de política de identidade ou questões que envolvam grandes reformas não há possibilidade de negociação. É mais fácil haver compromisso em questões econômicas, como impostos e salários, e muito mais difícil quando se trata de noções como soberania e papel do Estado.

Com a discussão sobre o BREXIT como tópico principal da eleição britânica de 12 de dezembro, o voto de centro terá pouca influência pela polarização entre os que querem sair e os que querem permanecer na UE. Desapareceu o senso comum de que o partido que pudesse focalizar as preocupações do eleitor de centro poderia ganhar, enquanto que os partidos que buscassem os extremos seriam derrotados.

As posições moderadas de centro também estão desaparecendo em muitos países tendo como pano de fundo a insatisfação da população com a crescente concentração de renda, a pobreza e a falta de oportunidades de emprego. Essa frustração se materializa em manifestações e confrontações em países como Líbano, Iraque, Hong Kong, França e, na América do Sul, no (mais…)

INSTABILIDADE POLÍTICA NA EUROPA

Por Rubens Barbosa*

Depois de muitos anos de estabilidade política, o cenário europeu se vê em rápida transformação.

Os problemas se acumulam. A retirada do Reino Unido continua sem solução. A crise só fez agravar-se com a demissão da primeira ministra Theresa May e com a ausência de uma perspectiva de negociação de Londres com a União Europeia. O presidente francês, Emmanoel Macron, que, com a saída de Angela Merkel da Alemanha, poderia assumir um papel de liderança de modo a fortalecer a integração européia, se vê enfraquecido diante do movimento de contestação iniciado pelos coletes amarelos (gilets jaunes) e das posições divergentes de Berlin.

A eleição para o Parlamento Europeu, realizada no último dia 26, talvez a mais importante desde a primeira, em 1979, elegeu 751 representantes de 28 países. O resultado manteve a maioria com os partidos pró-Europa, mas indicou o continuado crescimento dos partidos que se opõem à União Europeia. Na campanha eleitoral ficou claro que a extrema direita surgiu como a grande beneficiária da disputa (ganhou na França, Itália, Reino Unido, Bélgica e Hungria) e seu fortalecimento indica que passarão a dispor de maior influência. Os partidos nacionalistas e populistas alcançaram cerca de 25% e podem ter uma atuação de maior repercussão no Parlamento, o que fez com que Macron pedisse que haja uma maior colaboração entre os partidos conservadores, socialistas e verdes para se opor ao grupo de (mais…)

A VOZ DAS RUAS (NA FRANÇA)

Por Rubens Barbosa*

De passagem por Paris, pude acompanhar a grande manifestação de 1 de maio, organizada pela CGT (a CUT francesa) e a 25e a 26a. contestação dos coletes amarelos (gilets jaunes) contra Emmanuel Macron e suas políticas econômicas.

A eleição presidencial de 2017 trouxe uma forte renovação na vida politica da França. A vitória de Macron contra o establishment e contra os extremos de direita e da esquerda, deu-lhe um mandato para reformar o pais. Criou-se uma grande expectativa pelo anúncio de reformas muito semelhantes à da atual agenda brasileira. Reforma das relações trabalhistas, previdência social, tributaria, educação, gasto publico e mudanças na economia para melhorar a competitividade dos produtos franceses e reduzir os privilégios corporativos. A pergunta que se fazia era se Macron resistiria a CGT e a extrema esquerda.

A resistência às reformas, que incluiria o fim de privilégios e vantagens acumuladas durante os muito anos de governos socialistas e que determinaram a gradual perda de espaço econômico e comercial na Europa, ganhou, nos últimos meses, o apoio da classe media e dos mais pobres, afetados pela concentração de renda e o sentimento de exclusão dos ganhos trazidos pela globalização.

O estopim para o inicio do movimento dos coletes amarelos, em 17 de novembro de 2018, que vem se repetindo há 26 sábados por toda a França, foi o aumento do preço do diesel, como taxa para o meio ambiente. O movimento se (mais…)