INSTABILIDADE POLÍTICA NA EUROPA

Por Rubens Barbosa*

Depois de muitos anos de estabilidade política, o cenário europeu se vê em rápida transformação.

Os problemas se acumulam. A retirada do Reino Unido continua sem solução. A crise só fez agravar-se com a demissão da primeira ministra Theresa May e com a ausência de uma perspectiva de negociação de Londres com a União Europeia. O presidente francês, Emmanoel Macron, que, com a saída de Angela Merkel da Alemanha, poderia assumir um papel de liderança de modo a fortalecer a integração européia, se vê enfraquecido diante do movimento de contestação iniciado pelos coletes amarelos (gilets jaunes) e das posições divergentes de Berlin.

A eleição para o Parlamento Europeu, realizada no último dia 26, talvez a mais importante desde a primeira, em 1979, elegeu 751 representantes de 28 países. O resultado manteve a maioria com os partidos pró-Europa, mas indicou o continuado crescimento dos partidos que se opõem à União Europeia. Na campanha eleitoral ficou claro que a extrema direita surgiu como a grande beneficiária da disputa (ganhou na França, Itália, Reino Unido, Bélgica e Hungria) e seu fortalecimento indica que passarão a dispor de maior influência. Os partidos nacionalistas e populistas alcançaram cerca de 25% e podem ter uma atuação de maior repercussão no Parlamento, o que fez com que Macron pedisse que haja uma maior colaboração entre os partidos conservadores, socialistas e verdes para se opor ao grupo de (mais…)

A VOZ DAS RUAS (NA FRANÇA)

Por Rubens Barbosa*

De passagem por Paris, pude acompanhar a grande manifestação de 1 de maio, organizada pela CGT (a CUT francesa) e a 25e a 26a. contestação dos coletes amarelos (gilets jaunes) contra Emmanuel Macron e suas políticas econômicas.

A eleição presidencial de 2017 trouxe uma forte renovação na vida politica da França. A vitória de Macron contra o establishment e contra os extremos de direita e da esquerda, deu-lhe um mandato para reformar o pais. Criou-se uma grande expectativa pelo anúncio de reformas muito semelhantes à da atual agenda brasileira. Reforma das relações trabalhistas, previdência social, tributaria, educação, gasto publico e mudanças na economia para melhorar a competitividade dos produtos franceses e reduzir os privilégios corporativos. A pergunta que se fazia era se Macron resistiria a CGT e a extrema esquerda.

A resistência às reformas, que incluiria o fim de privilégios e vantagens acumuladas durante os muito anos de governos socialistas e que determinaram a gradual perda de espaço econômico e comercial na Europa, ganhou, nos últimos meses, o apoio da classe media e dos mais pobres, afetados pela concentração de renda e o sentimento de exclusão dos ganhos trazidos pela globalização.

O estopim para o inicio do movimento dos coletes amarelos, em 17 de novembro de 2018, que vem se repetindo há 26 sábados por toda a França, foi o aumento do preço do diesel, como taxa para o meio ambiente. O movimento se (mais…)

PRIORIDADES DA POLÍTICA EXTERNA PARA OS PRIMEIROS CEM DIAS

Por Rubens Barbosa* 

Segundo o texto que teria sido apresentado em reunião ministerial, as propostas, feitas pelo Ministro Ernesto Araújo, para os primeiros cem dias do governo Bolsonaro, foram:

1) visita do presidente Bolsonaro aos EUA e lançamento das bases de Acordo de Parceria Brasil-EUA ou instrumento similar, que incluirá o lançamento de um acordo comercial, bem como entendimentos em segurança, tecnologia e defesa;

2) visita do presidente Bolsonaro a Israel com a criação de parcerias em segurança, tecnologia e defesa;

3) inicio do processo e revisão do Mercosul para aperfeiçoamento de instrumentos favoráveis ao (mais…)

AS ELEIÇÕES E A CRISE

Por Rubens Barbosa*

A sociedade brasileira ainda não se deu conta da gravidade e da profundidade da crise em que o país se encontra e dos desafios que o novo governo deverá enfrentar.

As demandas internas são semelhantes àquelas que tiveram influência decisiva nas eleições americanas, na Argentina, na Colômbia e no México: descontentamento generalizado com a corrupção em todos os níveis, com a crescente violência, pobreza e desigualdade entre as pessoas e regiões. A percepção da injustiça (enquanto muitos trabalham, outros continuam a roubar),  da falência do Estado (que cresceu muito, aumenta impostos e oferece serviços ineficientes), da desordem pública (com a desobediência às leis), do custo e do tempo perdido com a burocracia crescente, entre outros fatores, gerou o clima que, como em outros países, fez com que os eleitores “ficassem contra tudo que está aí”. As preocupações se concentraram sobretudo na necessidade de estabilidade econômica, austeridade fiscal e governança da administração pública. A nossa carga tributária é uma das maiores do mundo, a economia permanece fechada e a desindustrialização afeta todos os setores. O país dividido entre o “nós e o eles”, a classe política, o Congresso e mesmo o Judiciário com baixo nível de aceitação pela opinião pública expuseram as flagrantes deficiências do governo.

Na recente campanha, os candidatos pouco focaram nesses temas, nem demonstraram liderança política clara que pensasse e atuasse com visão de futuro para indicar os caminhos do crescimento e do emprego. Alguns temas passaram longe das preocupações dos candidatos. Defesa, Política Externa, Comércio Exterior e (mais…)

CALOTE NO BNDES

Por Rubens Barbosa*

A politica de generosidade que os governos lulo-petistas implantaram no Brasil de 2003 a 2016, regada a corrupção, beneficiou empresas nacionais amigas do governo do PT e financiadoras de muitos políticos. E, no exterior, governos autoritários de países ideologicamente afinados. A conta dessa farra com os recursos públicos, em grande parte advinda dos Fundo de Assistência ao Trabalhador, está sendo apresentada agora com os sucessivos calotes sofridos pelo BNDES, obrigando o Tesouro a ressarcir o banco e honrar as garantias oferecidas aos empréstimos.

Estranhamente, em 2012, o então ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio assinou decreto impondo sigilo até 2027 sobre os empréstimos do BNDES, por coincidência, logo após a entrada em vigência da lei de Acesso à Informação. Com renovadas suspeitas de corrupção cercando os empréstimos internos e externos do Banco, em 2015, o Congresso aprovou decreto legislativo que suspendeu o sigilo, vetado de imediato pela presidente Dilma Rousseff. Só em julho de 2015, um juiz federal, atendendo a pedido do Ministério Público, suspendeu o decreto de 2012.

Levantada a barreira legal, o (mais…)