A VOZ DAS RUAS (NA FRANÇA)

Por Rubens Barbosa*

De passagem por Paris, pude acompanhar a grande manifestação de 1 de maio, organizada pela CGT (a CUT francesa) e a 25e a 26a. contestação dos coletes amarelos (gilets jaunes) contra Emmanuel Macron e suas políticas econômicas.

A eleição presidencial de 2017 trouxe uma forte renovação na vida politica da França. A vitória de Macron contra o establishment e contra os extremos de direita e da esquerda, deu-lhe um mandato para reformar o pais. Criou-se uma grande expectativa pelo anúncio de reformas muito semelhantes à da atual agenda brasileira. Reforma das relações trabalhistas, previdência social, tributaria, educação, gasto publico e mudanças na economia para melhorar a competitividade dos produtos franceses e reduzir os privilégios corporativos. A pergunta que se fazia era se Macron resistiria a CGT e a extrema esquerda.

A resistência às reformas, que incluiria o fim de privilégios e vantagens acumuladas durante os muito anos de governos socialistas e que determinaram a gradual perda de espaço econômico e comercial na Europa, ganhou, nos últimos meses, o apoio da classe media e dos mais pobres, afetados pela concentração de renda e o sentimento de exclusão dos ganhos trazidos pela globalização.

O estopim para o inicio do movimento dos coletes amarelos, em 17 de novembro de 2018, que vem se repetindo há 26 sábados por toda a França, foi o aumento do preço do diesel, como taxa para o meio ambiente. O movimento se (mais…)

CARTÓRIOS: UMA DAS JABUTICABAS NACIONAIS

Por Rubens Barbosa*

Em Portugal, nos idos de 1512-21, nas Ordenações Manuelinas, privilégios, foro privilegiado, direitos adquiridos, entre outras estripulias burocráticas, os cartórios foram minuciosamente regulados. Herdeiros do período colonial, ainda estamos, em 2018, discutindo como dar cabo do foro privilegiado e reduzir privilégios. O corporativismo que conquistou tantas vantagens e exceções está longe de ter o seu poder afetado. O valor probante dos escritos dos atos notariais e registrais é a cada dia ampliado com a inclusão de novas áreas e o correspondente aumento da receita dos cartórios.

A simplificação e a redução da burocracia que tanto emperra a vida das pessoas e das empresas devem ser ampliadas dentro de uma visão mais abrangente de reforma do Estado. A revista Interesse Nacional, em uma última edição, publica excelente artigo de Daniel Bogea em que defende a construção de uma (mais…)

NA ARGENTINA, REFORMAS DIFÍCEIS E CRISE DE CONFIANÇA

Por Rubens Barbosa

Aumento da taxa de juros e a valorização do dólar nos Estados Unidos tiveram impacto nos mercados emergentes, com a desvalorização das moedas nacionais. O que está acontecendo na Argentina é mais um exemplo de como as fronteiras entre fatores externos e a política econômica interna dos países desapareceram. O aumento da taxa de juros e a valorização do dólar nos Estados Unidos tiveram impacto nos mercados emergentes, com a desvalorização das moedas desses países.

 + ‘Se a Argentina não tem dinheiro, não deve gastar’, diz economista

A combinação desses fatores com decisões políticas como a criação de imposto sobre receitas financeiras e a defesa do peso, além de um crescente déficit fiscal que chegou a 3,9% do Produto Interno Bruto (PIB), praticamente o dobro do existente no Brasil, geraram desconfiança com a atuação do governo e do Banco Central. Como resultado, caíram os investimentos, o risco país aumentou, a desvalorização do dólar se acelerou, a taxa de juros foi seguidamente elevada (ate 40%) e houve perda sensível das reservas, forçando o presidente Maurício Macri a recorrer ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

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O pedido de US$ 30 bilhões ao FMI para fazer frente ao risco cambial e aos crescentes problemas econômicos que desestabilizaram a economia desde o início do ano foi igual ao que foi solicitado pelo presidente Fernando Henrique Cardoso pouco antes das eleições de 2002, e que ajudou a superar a crise daquele momento. (mais…)

O DESEQUILÍBRIO DE GÊNERO COMO AGRAVADOR SOCIAL NA CHINA

As opiniões exprimidas nesse artigo são próprias do autor, e não necessariamente refletem as de outros.

Por Renato Whitaker

A revista “The Economist” publicou um artigo em Março de 2018 que tentou explicitar os perigos existentes em uma sociedade polígama[1]. Observando países na África subsaariana e no Centro-Sul asiático – países permissíveis à prática – notou que comumente os dotes são pagos dos noivos ou sua família à noiva ou a família dessa, um chamado “preço de noiva”. Como escreveu o jornalista Jonathan Rauch na revista “The Atlantic” em 2006, isso torna-se um problema na medida em que:  “(…) quando um homem casa com duas mulheres, um homem casa com nenhuma. Quando um homem casa com três mulheres, dois outros não casam. (…) A monogamia dá a todos uma chance igual ao casamento.   A poligamia, por outro lado, cria um jogo de soma-zero que distorce o mercado nupcial, onde uns casam ao custo dos outros”.[2] (mais…)

O BRASIL DE RICUPERO

Por Daniel Afonso da Silva*

A diplomacia na construção do Brasil – 1750-2016 de Rubens Ricupero é a opera de uma vida, de um “empregado do Itamaraty”, diplomata de profissão, pensador por vocação e historiador por convicção.

Opera aberta pela “Minerva” de Tintoretto (1515-1594) e fechada pela “Aliança da Paz” de Guido Reni (1575-1642). Alegorias da paz pela negociação, pelo convencimento e pela diplomacia. Opera anunciada pela Carta das Costas de Magalhães de 1749 e pela pintura A pátria de Pedro Bruno de 1919. Concretude em território e em imaginação nacional. Opera ancorada na sagacidade atemporal dos ensinamentos de José Maria da Silva Paranhos Júnior, o barão do Rio Branco, referência matriz de um tipo de ser e de fazer da diplomacia brasileira. Opera abundante em qualidades. Sendo a generosidade, primeira e principal.

Rubens Ricupero foi alto funcionário do estado brasileiro por quase cinquenta anos. (mais…)