As opiniões exprimidas nesse artigo são próprias do autor, e não necessariamente refletem as de outros.

Por Renato Whitaker

A revista “The Economist” publicou um artigo em Março de 2018 que tentou explicitar os perigos existentes em uma sociedade polígama[1]. Observando países na África subsaariana e no Centro-Sul asiático – países permissíveis à prática – notou que comumente os dotes são pagos dos noivos ou sua família à noiva ou a família dessa, um chamado “preço de noiva”. Como escreveu o jornalista Jonathan Rauch na revista “The Atlantic” em 2006, isso torna-se um problema na medida em que:  “(…) quando um homem casa com duas mulheres, um homem casa com nenhuma. Quando um homem casa com três mulheres, dois outros não casam. (…) A monogamia dá a todos uma chance igual ao casamento.   A poligamia, por outro lado, cria um jogo de soma-zero que distorce o mercado nupcial, onde uns casam ao custo dos outros”.[2]

Com isso, a pressão societária em prol do casamento como um rito de vida e a pressão econômica para pagar um “preço de noiva” cada vez mais inflado dificulta a possibilidade de casamento para homens com baixo poder aquisitivo. Aumenta-se, pois, a atratividade da criminalidade ou, para países como o Sudão do Sul e Paquistão, o ingresso na militância armada para financiar o casamento ou receber “noivas de prémio”, como ocorreu com o Boko Haram.

Por sinal, foi também recentemente circuladas na mídia social chinesa notícias sobre as últimas estatísticas populacionais provindas do Gabinete de Estatísticas da China, que mostram que a população masculina ultrapassa a feminina por mais de 33 milhões[3]. Embora a poligamia é ilegal na China, esse desequilíbrio – fruto do fenómeno de nascimento seletivo durante os anos da Política de Filho Único – está impulsionando um efeito similar. Com a pressão societário para o casamento e possibilidade de noivas crescentemente mais restritas, o “custo” do “preço de noiva” – também praticado em várias regiões do país de formas diferentes[4] – encontrou-se em franca ascendência. Quando antes esse dote situava-se entre algumas centenas de yuans e/ou alguns itens caseiros, algumas regiões registram pagamentos equivalentes de até alguns milhares, a dezenas de milhares, de dólares[5].

Um estudo sublinhado por Rauch no seu artigo sugere que quando relação entre homens e mulheres numa sociedade aproxima-se de 120 homens para cada 100 mulheres, aumenta a tendência para a eclosão da tensão e conflito social. Presentemente, a razão da China entre os sexos de novas nascenças é em torno de 105/100, mas no auge de sua discrepância atingiu o nível de 121/100 em 2004[6]. A geração daquele ano assumirá logo a maioridade, e com isso todos os encargos trabalhistas e societários implícitos. Para a China, onde a harmonia social é um dos ideais o mais premiado pelas autoridades, esse desequilíbrio populacional ameaça ser um agravador da concórdia chinesa.

[1] “Why Polygamy Breeds Civil War”, The Economist, 19 Março 2018

[2] “One Man, Many Wives, Big Problems”, The Atlantic, Abril 2006. Tradução do autor.

[3] ‘China now has 33.5 Million More Men Than Women”. What’s on Weibo, 23 Janeiro 2017.

[4] “The Rising Cost of a Chinese Bride Price”, BBC, 6 Março 2016.

[5] “Forget dowries: Chinese men have to pay up to $24,000 to get a bride”, Quartz, June 9 2013

[6] “Bare Branches: Security Implications of Asia’s Surplus Male Population”, Valerie Hudson; Andrea M. den Boer, 2004.